Neste texto (6 partes)
Remédio com leite existe, sim, mas na maioria das vezes ele não é um problema para quem tem APLV. O ponto de atenção é a lactose usada como ingrediente de apoio em comprimidos, cápsulas e inaladores de pó: ela vem do leite de vaca e pode trazer traços da proteína. Na pasta de dente, a maioria das comuns não tem leite; a que costuma ter é a de remineralização com CPP-ACP, feito da caseína. E a massinha pode ter leite em algumas receitas.
Em nenhum desses casos a saída é parar um remédio por conta própria. A saída é avisar sempre que a pessoa tem APLV e conversar com o médico, o dentista ou o farmacêutico.
A pergunta que chegou no grupo
Uma mãe perguntou na comunidade: “que pasta de dente é segura?”. A resposta que demos lá foi curta: a maioria das pastas comuns não leva leite; a que costuma levar é a de remineralização com CPP-ACP, que é derivado da caseína; e, na dúvida, mande a foto do rótulo que a gente olha junto.
A dúvida dela é a mesma de muita família. A gente aprende a ler o rótulo do biscoito, mas esquece que o leite também aparece fora da cozinha. A cartilha de leitura de rótulos da Danone Nutricia avisa que ingredientes com proteína do leite também podem estar em medicamentos, massinha de modelar, pasta de dentes e outros cosméticos, e orienta consultar a lista de ingredientes, o SAC do fabricante ou um profissional de saúde.
Remédio com leite: onde está a lactose
A lactose é um dos “excipientes” mais usados pela indústria farmacêutica. Excipiente é o ingrediente que não é o remédio em si, mas dá forma ao comprimido, enche a cápsula ou carrega o pó do inalador até o pulmão.
Para quem tem intolerância à lactose, a quantidade num comprimido costuma ser pequena. Para quem tem APLV, a questão é outra: a alergia é à proteína do leite, e não ao açúcar. A lactose farmacêutica vem do leite de vaca, e a agência europeia de medicamentos (EMA) explicou em 2017 que a norma de fabricação dessa lactose não exclui traços de proteína do leite. Se a diferença entre as duas ainda confunde, veja APLV ou intolerância à lactose.
Quantos remédios têm lactose
Um estudo feito em Portugal (Espírito Santo, 2020) analisou a bula de 553 remédios vendidos lá: analgésicos com paracetamol ou ácido acetilsalicílico, antibióticos e remédios para asma. Em 127 deles, cerca de 23%, a lactose aparecia como excipiente. A maior parte (99) era de remédios para asma e bronquite, sobretudo os de pó para inalação. Os autores também notaram que a bula nem sempre destaca o risco para quem tem alergia ao leite.
É um estudo de outro país, com remédios de lá. Serve para mostrar onde vale prestar atenção, não para dizer que um remédio daqui tem ou não tem lactose.
Reação é rara, mas acontece
Uma revisão sobre crianças com alergia ao leite (Santoro et al., 2019) juntou os casos relatados de reação à proteína do leite em remédios. São poucos, quase sempre em crianças com alergia forte, e aparecem com:
- alguns inaladores de pó com lactose;
- um corticoide injetável feito com lactose, usado justamente para tratar crises alérgicas;
- alguns probióticos;
- algumas vacinas, assunto que explicamos em tríplice viral e APLV.
Os mesmos autores dizem que a maioria das crianças com APLV usa esses remédios sem problema e que evitar tudo sem necessidade não é recomendado. O cuidado maior é para quem tem a forma IgE mediada (reação rápida) e já teve reação forte.
Foi por causa desse corticoide injetável que a EMA decidiu, em 2017, que a metilprednisolona injetável com lactose não deve ser usada em quem tem alergia, confirmada ou suspeita, à proteína do leite, e pediu aos fabricantes versões sem leite. É mais um motivo para dizer “tem APLV” logo na chegada ao pronto-socorro.
O que fazer com o remédio
- Avise sempre. Em toda consulta, no pronto-socorro e no balcão da farmácia, diga que a pessoa tem alergia à proteína do leite, não “intolerância”.
- Leia a composição. Na bula, a parte “Composição” lista os excipientes. Procure lactose, lactose monoidratada, caseína, caseinato, soro de leite e os outros nomes do leite no rótulo.
- Pergunte ao farmacêutico. Ele pode conferir a composição e conversar com o médico se houver outra apresentação, como solução oral ou supositório, que o estudo português cita como formas com menos lactose.
- Nunca pare um remédio por conta própria. Remédio de asma, antibiótico ou corticoide fazem falta. Se achar que a lactose é um problema no seu caso, converse com o médico antes de mudar qualquer coisa.
- Anote. Se aparecer um sintoma depois de um remédio novo, anote o nome, a hora e o que aconteceu, e leve à consulta.
Pasta de dente tem leite?
A maioria das pastas de dente comuns, de farmácia e mercado, não leva leite. Os pontos de atenção são dois:
- Pasta de remineralização com CPP-ACP. A sigla quer dizer fosfopeptídeo de caseína com fosfato de cálcio amorfo. É feito da caseína do leite e aparece em cremes para “fortalecer o esmalte”, em gomas de mascar e em produtos que o dentista passa no consultório. O próprio fabricante orienta não usar em pessoas com alergia comprovada ou suspeita à proteína do leite, e a sociedade australiana de alergia (ASCIA) passou a recomendar, em 2022, evitar esses produtos depois de casos de anafilaxia.
- Pasta “com enzimas”. Algumas trazem lactoferrina ou lactoperoxidase, proteínas que, no uso comercial, vêm do leite de vaca. A lactoferrina está na lista de nomes do leite da cartilha da Danone.
Duas atitudes resolvem quase tudo. Primeiro, conte ao dentista que a criança tem APLV, em toda consulta, porque alguns produtos de consultório levam caseína. Segundo, antes de comprar uma pasta nova, leia a composição na caixa. Se ficar na dúvida, mande a foto do rótulo no grupo.
Massinha tem leite?
Pode ter, dependendo da marca e da receita. Não encontramos estudo sobre isso; o alerta vem da cartilha de rótulos da Danone, que cita a massinha de modelar entre os produtos que podem ter proteína do leite.

O risco maior é a criança pequena pôr a massinha na boca ou levar a mão suja ao rosto. Por isso:
- leia a composição na embalagem; se não houver, pergunte ao SAC do fabricante;
- na escola, avise a professora e combine qual massinha a turma usa, como explicamos em APLV na escola;
- a massinha caseira de farinha de trigo, sal, água e óleo não leva leite. Se a criança também tem alergia a trigo, converse com o nutricionista antes.
Vale o mesmo raciocínio para cremes, hidratantes e sabonetes com “leite” ou “proteína do leite” no nome: leia a composição e, na dúvida, converse com o médico.

Sinais de alerta
Falta de ar, chiado no peito, inchaço nos lábios, na língua ou no rosto, vômitos repetidos, palidez ou moleza depois de um remédio, de um produto do dentista ou de qualquer contato com leite: ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro na hora. E diga lá que a pessoa tem APLV.
Fontes
- Danone Nutricia. Será que esse alimento tem proteínas do leite de vaca? Material de apoio para famílias, 2022. PDF
- Espírito Santo MH. Excipientes presentes em medicamentos e alergia à proteína do leite de vaca: análise dos RCM. Dissertação de mestrado, Instituto Universitário Egas Moniz, 2020. PDF
- Santoro A et al. Allergic reactions to cow's milk proteins in medications in childhood. Acta Biomed, 2019. PubMed
- EMA. PRAC recommends injectable methylprednisolone products containing lactose must not be given to patients allergic to cow's milk proteins, 2017. PDF
- ASCIA. Allergic reactions to dental products containing CPP-ACP, 2022. Página
- Folheto do fabricante do CPP-ACP, em português (contraindicação na alergia à proteína do leite). PDF
- Gudipaneni RK et al. Antimicrobial efficacy of tooth paste containing lactoferrin, lysozyme, lactoperoxidase in children. J Clin Diagn Res, 2014. PMC
Perguntas frequentes
Quem tem APLV pode tomar remédio com lactose?
Na maioria das vezes, sim: a lactose em si não causa a alergia, e as reações a traços de proteína em remédios são raras. O cuidado maior é para quem tem alergia forte, de reação rápida, e para alguns inaladores de pó e injetáveis. Converse com o médico sobre o seu caso e nunca pare um remédio por conta própria.
Como saber se o remédio tem leite?
Leia a parte “Composição” da bula, que lista os excipientes, e procure lactose, caseína, caseinato e soro de leite. O farmacêutico pode ajudar a conferir e a ver com o médico se existe outra apresentação.
Qual pasta de dente é segura para quem tem APLV?
A maioria das pastas comuns não tem leite. Evite as de remineralização com CPP-ACP, que é feito da caseína, e confira as que têm lactoferrina ou lactoperoxidase. Na dúvida, mande a foto do rótulo no grupo e avise o dentista sobre a APLV.
Massinha de modelar tem leite?
Algumas podem ter, segundo a cartilha de rótulos da Danone. Leia a composição ou pergunte ao fabricante. A massinha caseira de farinha, sal, água e óleo não leva leite.
Remédio para intolerância à lactose serve para APLV?
Não. A enzima lactase ajuda a digerir o açúcar do leite, mas não muda nada na proteína, que é o que causa a alergia. Para quem tem APLV, o que vale é a dieta de exclusão orientada pelo médico.
Tem um rótulo de remédio, pasta ou brinquedo e não sabe se tem leite? Mande a foto na comunidade APLV do Alergias Brasil, no WhatsApp, que a gente olha junto.