Neste texto (7 partes)
- Refluxo, doença do refluxo e APLV: qual a diferença
- Refluxo APLV: sinais que fazem o médico pensar em alergia ao leite
- Como o médico investiga: dieta de exclusão e teste de volta
- O que o médico pode indicar
- Sinais de alerta: ligue 192 ou vá ao pronto-socorro
- No dia a dia: mamadas, colo e sono seguro
- Ninguém precisa passar por isso sem apoio
Refluxo e APLV podem andar juntos, mas não são a mesma coisa. Golfar depois de mamar é comum e, na maioria dos bebês, normal. Quando o refluxo atrapalha, vira doença do refluxo (DRGE). E a APLV pode causar ou piorar o refluxo: por isso, quando ele não melhora com os cuidados do dia a dia, as diretrizes pedem que o médico pense em alergia ao leite.
Se o seu bebê golfa muito, engasga e chora nas mamadas, a gente sabe o quanto isso cansa e assusta. Este texto ajuda a entender o que pode estar acontecendo e o que perguntar na consulta. Quem separa uma coisa da outra é o pediatra ou o gastroenterologista pediátrico.
Refluxo, doença do refluxo e APLV: qual a diferença
São três situações diferentes, que às vezes se misturam.
Refluxo normal (o bebê golfa, mas está bem)
Refluxo é o leite voltar do estômago para o esôfago. No bebê, isso acontece muito, porque o estômago é pequeno e a "válvula" entre o esôfago e o estômago ainda está amadurecendo. O bebê golfa, às vezes bastante, mas mama bem, ganha peso e fica tranquilo.
A diretriz das sociedades americana e europeia de gastroenterologia pediátrica (NASPGHAN/ESPGHAN, 2018) chama isso de refluxo fisiológico: é comum no primeiro ano e, em geral, não precisa de remédio.
Doença do refluxo (DRGE): quando o refluxo atrapalha
Pela mesma diretriz, o refluxo vira doença quando causa sintomas que incomodam de verdade ou complicações, como inflamação no esôfago. Alguns sinais que fazem o médico pensar em DRGE:
- Choro forte e sinais de dor durante ou logo depois das mamadas.
- Recusa do peito ou da mamadeira.
- Pouco ganho de peso.
- Tosse, engasgos ou chiado que se repetem.
Só que choro, irritação e arquear as costas também aparecem em bebês sem nenhuma doença. Por isso o diagnóstico é do médico, pela história e pelo exame do bebê.
Quando a APLV é a causa do refluxo
Na APLV, o sistema de defesa do bebê reage à proteína do leite de vaca. Em parte dos bebês, essa reação aparece como vômitos e regurgitação iguais aos do refluxo. A diretriz NASPGHAN/ESPGHAN explica que, às vezes, a regurgitação é o único sinal da alergia num bebê que parece saudável, e que nesses bebês os vômitos costumam diminuir em cerca de 2 semanas depois que a proteína do leite sai da dieta, voltando quando o leite volta.
A Academia Europeia de Alergia (EAACI, 2022) tem um documento só sobre o refluxo ligado à alergia alimentar. Ele lembra que essa relação existe em alguns bebês, mas é discutida, e precisa ser avaliada com cuidado pelo médico.

Refluxo APLV: sinais que fazem o médico pensar em alergia ao leite
O que chama a atenção não é um sinal sozinho, e sim o conjunto. O médico costuma pensar em APLV quando o refluxo vem junto com:
- Pele: manchas vermelhas, coceira, urticária, dermatite que não melhora.
- Intestino: muco ou rajinhas de sangue no cocô, diarreia, intestino preso, cólica forte. Veja mais em fezes de bebê com APLV.
- Respiração: chiado ou nariz entupido sem estar gripado.
- Crescimento: dificuldade para ganhar peso.
- Histórico: pais ou irmãos com alergia, asma ou dermatite.
- Refluxo que não melhora com os cuidados das mamadas e do dia a dia.
A diretriz europeia de 2024 sobre APLV (ESPGHAN) faz um alerta importante: golfar, recusar a mamada ou mudar o cocô são coisas comuns no bebê e, sozinhas, não bastam para dizer que é alergia. Uma revisão de 2021 lembra que não existe exame que, sozinho, separe refluxo de APLV não IgE. A lista completa de sinais está em sintomas de APLV.
A diretriz NASPGHAN/ESPGHAN também diz que refluxo que começa depois dos 6 meses, ou que continua forte depois de 1 ano a 1 ano e meio, pede que o médico investigue outras causas.
Como o médico investiga: dieta de exclusão e teste de volta
Não existe exame de sangue ou de farmácia que confirme a APLV com refluxo. O caminho, segundo a Atualização em Alergia Alimentar da ASBAI e da SBP (2025) e o Consenso Brasileiro de 2018, costuma ser assim:
- O médico orienta tirar a proteína do leite de vaca por um período curto.
- Ele reavalia: os sintomas melhoraram?
- O leite volta, com orientação e supervisão médica, no chamado teste de provocação oral.
- Se os sintomas voltam, a APLV fica confirmada. Se não voltam, o médico procura outra explicação.
Esse teste de volta é o que confirma. Melhorar com a dieta, sozinho, não prova que é alergia: o refluxo normal também melhora com o tempo. Uma atualização de 2025 sobre alergias não IgE alerta justamente para o risco de dietas longas e desnecessárias para o bebê e para a mãe.
O que mais ajuda na consulta é anotar: horário das mamadas, quantas vezes golfou, engasgos, choro, cocô (com foto), pele e peso. Leve tudo ao pediatra.

O que o médico pode indicar
Cada bebê é um caso. Estas são as opções que as diretrizes descrevem, sempre decididas pelo pediatra, alergista ou gastropediatra.
Se o bebê mama no peito
O leite materno continua sendo o melhor alimento, também na APLV com refluxo. Quando o médico suspeita de alergia, ele pode orientar a mãe a tirar o leite e os derivados da própria alimentação, porque um pouco da proteína que ela come passa para o leite. Essa dieta pede acompanhamento, de preferência com nutricionista. Explicamos tudo em dieta da mãe que amamenta.
Se o bebê toma fórmula
A diretriz NASPGHAN/ESPGHAN sugere que, quando os cuidados do dia a dia não resolvem, o médico pode considerar um teste de 2 a 4 semanas com fórmula extensamente hidrolisada (a proteína do leite vem "quebrada" em pedaços bem pequenos). A fórmula de aminoácidos fica, em geral, para os casos mais graves ou que não melhoram com a extensamente hidrolisada. Quem escolhe o tipo é o médico.
Essas fórmulas podem ser conseguidas pelo SUS. Veja o passo a passo em fórmula para APLV pelo SUS e, para quem é de Minas, no guia do leite APLV pelo SUS em Minas Gerais.
E se o bebê também reage à soja?
Acontece. Segundo a diretriz NASPGHAN/ESPGHAN, 10% a 15% dos bebês com APLV também ficam alérgicos à soja. Por isso, bebida de soja de caixinha não substitui fórmula, e a fórmula de soja só entra se o médico indicar. Se a soja também é um problema na sua casa, leia alergia a soja.
Espessantes e fórmulas antirregurgitação
Engrossar o leite pode diminuir a golfada visível, diz a diretriz, mas tem pontos de atenção. Nem todo espessante serve para toda idade, e o leite materno não engrossa com qualquer farinha. E as fórmulas antirregurgitação comuns, as "AR", costumam ser feitas com proteína do leite de vaca inteira, o que não combina com APLV. Por isso, espessante e fórmula AR só com indicação do médico.
Remédio para refluxo
Aqui a diretriz é clara. Os remédios que diminuem o ácido do estômago não são recomendados para tratar choro e irritação, nem golfada visível, em bebês que estão bem. Também não são indicados como "teste" para ver se é refluxo, porque os estudos em bebês não mostraram melhora maior do que com placebo. Eles têm lugar em casos específicos, como inflamação no esôfago, sempre com receita e acompanhamento. Converse com o pediatra antes de qualquer remédio.
Sinais de alerta: ligue 192 ou vá ao pronto-socorro
Procure atendimento na hora, pelo 192 (SAMU) ou no pronto-socorro mais perto, se o bebê:
- Engasgar e ficar sem ar, com a boca ou o rosto roxos, ou parar de respirar por alguns segundos.
- Vomitar verde (bile) ou com sangue (vermelho vivo ou parecido com borra de café).
- Vomitar em jato, várias vezes seguidas.
- Recusar todas as mamadas, fizer pouco xixi ou estiver com a boca seca (sinais de desidratação).
- Ficar molinho, sonolento demais, pálido ou com febre.
- Estiver perdendo peso.
Esses sinais podem indicar outras doenças, que a diretriz NASPGHAN/ESPGHAN lista como "bandeiras vermelhas" e que precisam ser vistas logo.
No dia a dia: mamadas, colo e sono seguro
Alguns cuidados ajudam o bebê com refluxo, com ou sem APLV. Combine cada um com o pediatra.
- Mamadas no tamanho certo: a diretriz sugere ajustar a quantidade e o intervalo para a idade e o peso, evitando dar leite demais de uma vez.
- Pausas para arrotar durante e depois da mamada.
- Colo em pé depois de mamar, com o bebê acordado e alguém olhando.
- Roupa e fralda sem apertar a barriga.
Bebê com refluxo dorme de barriga para cima
Mesmo com refluxo, o bebê dorme de barriga para cima. A Sociedade Brasileira de Pediatria (Nota de Alerta nº 56, 2023) diz que essa é a posição para todas as crianças, em todas as ocasiões, inclusive as que têm refluxo. A Caderneta da Criança do Ministério da Saúde traz a mesma orientação.
É natural ter medo de o bebê engasgar deitado. A SBP explica que, de barriga para baixo, fica até mais fácil o leite golfado entrar nas vias aéreas.
E o travesseiro antirrefluxo?
A mesma nota da SBP orienta berço com colchão firme e sem inclinação, sem travesseiros, almofadas, rolinhos ou ninhos, e diz que a cadeirinha do carro não é lugar para dormir todos os dias. A diretriz NASPGHAN/ESPGHAN também recomenda não usar elevação da cabeceira, nem deixar de lado ou de bruços, para tratar refluxo no bebê dormindo. Ou seja: travesseiro antirrefluxo, rampa e calço no berço não entram no sono seguro.
Ninguém precisa passar por isso sem apoio
Refluxo forte cansa a família inteira: noites picadas, roupa trocada o dia todo, medo a cada engasgo. Não é culpa de ninguém. Com um bom registro e um médico que acompanhe de perto, a maioria dos bebês melhora com o tempo.
Se a APLV está chegando agora, comece pelo guia de APLV no bebê.
Fontes científicas
- Rosen R, Vandenplas Y et al. Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines: Joint Recommendations of NASPGHAN and ESPGHAN. J Pediatr Gastroenterol Nutr, 2018. PubMed
- Vandenplas Y et al. An ESPGHAN Position Paper on the Diagnosis, Management, and Prevention of Cow's Milk Allergy. J Pediatr Gastroenterol Nutr, 2024. PubMed
- Meyer R, Vandenplas Y, Lozinsky AC et al. Diagnosis and management of food allergy-associated gastroesophageal reflux disease in young children: EAACI position paper. Pediatr Allergy Immunol, 2022. PubMed
- Salvatore S et al. Cow's Milk Allergy or Gastroesophageal Reflux Disease: Can We Solve the Dilemma in Infants? Nutrients, 2021. PubMed
- Meyer R, Cianferoni A, Vazquez-Ortiz M. An update on the diagnosis and management of non-IgE-mediated food allergies in children. Pediatr Allergy Immunol, 2025. PubMed
- ASBAI e SBP. Atualização em Alergia Alimentar 2025. Arq Asma Alerg Imunol, 2025. Texto completo
- Solé D et al. Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar: 2018, Parte 2. SBP e ASBAI. Texto completo
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Nota de Alerta nº 56: Recomendações da Academia Americana de Pediatria sobre sono seguro em menores de um ano, 2023. PDF
- Ministério da Saúde. Caderneta da Criança, 6ª edição. PDF
Perguntas frequentes
APLV causa refluxo?
Pode causar ou piorar. Em parte dos bebês com APLV, a alergia aparece como regurgitação e vômitos parecidos com os do refluxo comum. Por isso, quando o refluxo não melhora com os cuidados do dia a dia, as diretrizes orientam o médico a considerar APLV.
Como saber se é refluxo ou APLV?
Só o médico separa as duas coisas. Ele olha o conjunto (pele, cocô, peso, histórico na família) e, se suspeitar de alergia, orienta uma dieta sem leite por um tempo e depois o teste de volta do leite, com supervisão.
Refluxo por APLV melhora com a dieta?
Quando a causa é a alergia, os vômitos costumam diminuir em cerca de 2 semanas sem a proteína do leite, segundo a diretriz NASPGHAN/ESPGHAN. Mas melhorar não confirma a alergia sozinho: quem confirma é o teste de volta do leite, feito com o médico.
Bebê com refluxo pode dormir de lado ou com travesseiro?
Não é o recomendado. A Sociedade Brasileira de Pediatria e o Ministério da Saúde orientam que todo bebê durma de barriga para cima, inclusive com refluxo, em berço firme e sem inclinação, sem travesseiros, almofadas ou rolinhos.
Fórmula AR serve para bebê com APLV?
As fórmulas antirregurgitação comuns costumam ser feitas com proteína do leite de vaca inteira, então não combinam com APLV. Para bebê com alergia, quem escolhe a fórmula (e se precisa engrossar o leite) é o pediatra ou o gastropediatra.
Na comunidade APLV do Alergias Brasil, muitas famílias já passaram pelo refluxo junto com a APLV e contam o que levaram para a consulta. Vem conversar com a gente.