Neste texto (6 partes)
Alergia a soja é quando o sistema imune reage às proteínas da soja. Os sintomas podem vir rápido, com coceira, manchas na pele, inchaço ou vômito, ou horas depois, com sintomas na barriga, como vômitos repetidos, diarreia ou sangue nas fezes no bebê. É mais comum em crianças pequenas e costuma passar com o tempo, mas quem confirma e acompanha é o médico.
Abaixo, o que dizem as fontes oficiais, sem alarde e sem minimizar.
O que é a alergia a soja
A soja tem várias proteínas que podem causar alergia. Elas estão no grão, no extrato ("leite") de soja, no tofu, no missô, no shoyu, no edamame e em ingredientes da indústria, como a proteína isolada e a proteína texturizada de soja.

Alergia a soja não é a mesma coisa que as polêmicas de internet sobre "soja faz mal" ou "hormônio da soja". Esses são outros assuntos. Aqui falamos de alergia: o sistema imune reagindo a um alimento.
Segundo a ASBAI, leite, ovo, soja e trigo são os alimentos mais ligados a alergia em crianças de até 2 anos. Não há estudo que diga quantas pessoas têm alergia a soja no Brasil. Uma revisão de 40 estudos de vários países estimou a alergia a soja em menos de 0,5% da população geral, um número bem menor do que o de pessoas que só têm o exame positivo.
Alergia a soja: sintomas
O Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar, da SBP e da ASBAI, separa as reações em dois grupos.
Reação rápida (IgE mediada)
De minutos até cerca de 2 horas depois de comer:
- Coceira, vermelhidão, urticária.
- Inchaço nos olhos, lábios ou rosto.
- Vômito, dor de barriga, diarreia.
- Coriza, tosse, chiado.

Reação tardia (não IgE)
Aparece horas ou dias depois, mexendo mais com o intestino. A ASBAI destaca que esse tipo de reação é mais comum com leite e soja, principalmente no primeiro ano de vida, e pode trazer:
- Sangue nas fezes.
- Vômitos ou diarreia que não passam.
- Dificuldade para ganhar peso e crescer.
Uma forma especial é a FPIES (enterocolite induzida por proteína alimentar): de 1 a 4 horas depois de comer, o bebê vomita muitas vezes, fica pálido e molinho. A soja está entre os alimentos que mais causam FPIES, segundo o consenso internacional sobre FPIES. Isso precisa de atendimento rápido.
E no adulto?
Em adultos, a alergia a soja pode aparecer junto com a alergia ao pólen de bétula, uma árvore comum no norte da Europa e quase inexistente no Brasil. Nesses casos, uma proteína da soja parecida com a do pólen pode causar coceira na boca e, às vezes, reações fortes, sobretudo com bebidas e pós de proteína de soja, como mostrou um estudo alemão. Quem tem alergia a pólen e reagiu a soja pode conversar sobre isso com o alergista.
Quando é emergência
Falta de ar, chiado forte, voz rouca, inchaço na língua ou na garganta, vômitos repetidos com moleza, palidez, tontura ou desmaio. Ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro. Saiba mais em anafilaxia.

Como o médico confirma
Segundo a diretriz europeia de alergia (EAACI 2023), o diagnóstico junta a história da reação, exames de sangue (IgE específica) ou teste na pele, e, quando preciso, o teste de provocação oral, em que a pessoa come o alimento aos poucos, em ambiente preparado.
Um ponto importante: o exame pode dar positivo para soja em quem come soja sem problema nenhum. Isso se chama sensibilização. A própria diretriz europeia diz que, para a soja, os exames de sangue e de pele acertam menos do que para outros alimentos, como o amendoim. Por isso o exame sozinho não basta, e cortar a soja só por causa de um exame é uma conversa para ter com o alergista. O teste de provocação oral é a referência para tirar a dúvida.
Como as reações tardias não dependem da IgE, o exame de sangue para IgE pode vir normal. Nesses casos, segundo o Consenso da SBP e da ASBAI, o diagnóstico vem da história, da melhora quando a soja sai da dieta e da volta dos sintomas quando ela é reintroduzida, num teste orientado pelo médico.
Alergia a soja e APLV
Muitas famílias chegam à soja vindas da alergia ao leite. Duas coisas costumam confundir:
- Ter as duas alergias: num estudo com crianças com APLV do tipo IgE, 14% também tinham alergia a soja. Ou seja, a maioria tolerava soja.
- Fórmula de soja: o SUS incorporou a fórmula de soja para a APLV em 2018 (Portaria SCTIE/MS 67/2018 e relatório da Conitec). A proposta de protocolo da APLV que a Conitec levou à consulta pública em 2022 indica a fórmula de soja como primeira opção só para bebês de 6 a 24 meses com APLV do tipo IgE e baixo risco de anafilaxia, e diz que ela não é recomendada antes dos 6 meses. Para outros casos, o protocolo prevê outras fórmulas. Quem decide é o médico, olhando cada caso.
Se o bebê com APLV reagiu à fórmula de soja, anote o que aconteceu e converse com o pediatra. Para entender a APLV, veja o que é APLV.
O que evitar: onde a soja aparece
O tratamento é tirar a soja da alimentação, com leitura de rótulo e reavaliação periódica, como descreve o Consenso da SBP e da ASBAI. A soja aparece em:
- Grão de soja, edamame, tofu, missô, shoyu (molho de soja).
- Extrato e bebida de soja.
- Proteína isolada, texturizada ("carne de soja") e farinha de soja.
- Muitos industrializados: biscoitos, pães, embutidos, achocolatados, sorvetes, hambúrgueres e empanados.
Pela regra da Anvisa (RDC 727/2022, que substituiu a RDC 26/2015), a soja e seus derivados têm de aparecer no aviso "ALÉRGICOS: CONTÉM SOJA", "CONTÉM DERIVADOS DE SOJA" ou "CONTÉM SOJA E DERIVADOS". Explicamos os nomes em proteína isolada de soja e outros nomes no rótulo.
E o óleo e a lecitina de soja?
O óleo de soja e a lecitina de soja vêm da parte gordurosa do grão e têm pouquíssima proteína, por isso o caso deles costuma ser avaliado à parte. No Brasil, os dois continuam com o aviso de alergênico no rótulo; nos Estados Unidos e na Europa, o óleo de soja altamente refinado é dispensado do aviso, mas a lecitina não. Se entram ou não na sua dieta é uma decisão individual com o alergista. Veja o texto sobre lecitina de soja.
Feijão, amendoim e ervilha
São da mesma família da soja (as leguminosas). Os exames costumam dar positivo para várias delas ao mesmo tempo, mas reagir de verdade a mais de uma é bem menos comum: num estudo clássico com 41 crianças alérgicas a leguminosas, só 2 reagiram a mais de uma. O amendoim é um caso à parte: muitas crianças com alergia a soja acompanhadas em centros de referência também têm alergia a amendoim. Antes de cortar ou de oferecer qualquer um, converse com o alergista.
Alergia a soja tem cura? Quando passa
Não existe remédio que cure, mas na maioria das crianças ela passa. Num centro de referência americano, a estimativa foi de alergia a soja superada em 25% das crianças aos 4 anos, 45% aos 6 e 69% aos 10; cerca de metade tinha superado por volta dos 7 anos. Nesse grupo, 88% também tinham alergia a amendoim, então são casos mais complexos que a média. Quanto mais baixo o exame de IgE para soja, maior a chance de a alergia passar. Por isso o médico reavalia de tempos em tempos, como recomenda a diretriz europeia.
Fontes
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2018, parte 1 (SBP e ASBAI)
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2018, parte 2 (SBP e ASBAI)
- ASBAI: leite, ovo, soja e trigo em crianças de até 2 anos
- EAACI 2023: diagnóstico de alergia alimentar IgE
- Savage et al., história natural da alergia a soja, JACI 2010
- Zeiger et al., alergia a soja em crianças com APLV IgE, 1999
- Conitec: PCDT da APLV, consulta pública 24/2022
- Conitec: fórmulas para APLV no SUS, 2018
- Anvisa, RDC 26/2015 (revogada pela RDC 727/2022)
- Anvisa, RDC 727/2022
- Katz et al., revisão sobre sensibilização e alergia a soja, 2014
- Consenso internacional sobre FPIES, AAAAI, 2017
- Bernhisel-Broadbent et al., leguminosas em crianças alérgicas, JACI 1989
- Kleine-Tebbe et al., soja e alergia ao pólen de bétula, JACI 2002
Perguntas frequentes
Quais os sintomas de alergia a soja no bebê?
Pode haver manchas e coceira na pele logo depois de comer, ou sintomas mais lentos na barriga, como vômitos, diarreia, sangue nas fezes e dificuldade para ganhar peso. Anote e leve ao pediatra.
Quem tem APLV tem alergia a soja?
Nem sempre. Num estudo com crianças com APLV do tipo IgE, 14% também tinham alergia a soja. O médico avalia cada caso.
Quem tem alergia a soja pode comer feijão?
Ter alergia a soja não quer dizer ter alergia a feijão. O exame pode dar positivo para os dois, mas reagir de verdade aos dois é bem menos comum. Antes de tirar qualquer alimento da dieta, converse com o alergista.
Alergia a soja passa?
Na maioria das crianças, sim, com o tempo. O alergista reavalia de tempos em tempos para ver se já passou.
Quem tem alergia a soja pode tomar anestesia?
Conte sempre ao anestesista sobre a alergia. Um estudo com adultos alérgicos a soja, ovo ou amendoim não encontrou relação entre essas alergias e reação ao anestésico propofol, que leva óleo de soja na fórmula.
Na comunidade do Alergias Brasil, famílias e adultos com alergia a soja trocam dúvidas de rótulo, receitas e experiência com fórmula e escola.