Neste texto (8 partes)
Alergia ao látex é uma reação do sistema imune às proteínas do látex natural, a seiva da seringueira usada em luvas, balões, camisinhas, bicos e materiais de hospital. Ela pode causar desde coceira e vergões na pele até chiado e anafilaxia. Nem toda reação à borracha é alergia ao látex, e quem diferencia é o alergista.
O Brasil é o país da seringueira, mas a alergia ainda é pouco conhecida por aqui. Vamos às fontes.
O que é a alergia ao látex
O látex natural tem várias proteínas capazes de causar alergia. Elas ficam principalmente em produtos finos, feitos mergulhando um molde no látex, como luvas, balões e camisinhas. A Organização Mundial de Alergia (WAO) aponta esses produtos, junto com sondas e outros materiais que tocam as mucosas, como o maior risco para quem é alérgico.
Três reações diferentes que muita gente chama de alergia ao látex
A WAO separa três coisas:
- Dermatite irritativa: pele seca, rachada e vermelha nas mãos por causa de suor, atrito e lavagem frequente. É o problema mais comum com luvas e não é alergia.
- Dermatite alérgica de contato: vermelhidão, coceira e feridinhas que aparecem horas ou dias depois, causadas por produtos químicos adicionados à borracha, e não pela proteína do látex.
- Alergia imediata ao látex (mediada por IgE): a reação às proteínas do látex. Aparece rápido, em minutos, e é a que pode ser grave.
Essa diferença importa, porque o cuidado e o risco mudam bastante de uma para outra.
Alergia ao látex: sintomas
Na alergia imediata, a ASBAI e a WAO descrevem:
- Coceira, vermelhidão e vergões na pele que tocou o látex, em geral 10 a 15 minutos depois de calçar uma luva.
- Inchaço de lábios, olhos ou rosto.
- Coriza, olhos coçando, chiado e crise de asma, quando o pó das luvas leva o látex para o ar.
- Náusea e vômito.
- Anafilaxia, a forma mais grave.
Sinais de emergência
Falta de ar, chiado forte, sensação de garganta fechando, inchaço na língua, tontura, desmaio ou pressão baixa depois de contato com látex: ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro. Veja anafilaxia.

Quem tem mais risco
Uma revisão de 2016, com números repetidos pela ASBAI, estimou a frequência média da alergia ao látex no mundo em:
- 9,7% dos profissionais de saúde;
- 7,2% das pessoas com risco maior, como quem passou por muitas cirurgias;
- 4,3% da população geral, com base em estudos limitados.
A WAO conta que, nos anos 1990, de 3% a 9,5% da população geral tinha sensibilização ao látex. Com as luvas sem pó, esse número caiu, e nos países que adotaram medidas de saúde pública para reduzir o contato ficou abaixo de 1%.
No Brasil não há um número nacional, só estudos em grupos específicos:
- Em São Paulo, entre 55 crianças e adolescentes com mielomeningocele, 20% tinham alergia ao látex, ligada a asma, a outras alergias e a 4 ou mais cirurgias.
- No Hospital das Clínicas da USP, 23,2% dos pacientes com mielomeningocele tinham sinais de alergia ao látex registrados no prontuário, e os alérgicos tinham passado, em média, por mais cirurgias.
A ASBAI também cita trabalhadores da indústria da borracha.
Onde o látex aparece
- Luvas de procedimento, cirúrgicas e de dentista.
- Balões de festa.
- Camisinhas e diafragmas.
- Chupetas e bicos.
- Borrachas escolares.
- Sondas, cateteres e outros materiais de hospital.
No Brasil, a Lei 12.849/2013 obriga as fábricas de produtos com látex natural a avisar na embalagem. E a RDC 924/2024 da Anvisa, que substituiu a RDC 37/2015, exige nos produtos para a saúde com látex natural a frase "CONTÉM LÁTEX NATURAL. PODE CAUSAR ALERGIA" ou, no lugar da primeira parte, o símbolo do látex junto com "PODE CAUSAR ALERGIA". A mesma norma proíbe chamar esses produtos de "hipoalergênicos".
Falamos de camisinha em alergia a camisinha.

Látex e frutas
Quem tem alergia ao látex pode reagir também a algumas frutas, como banana, abacate, kiwi e mamão. Segundo a ASBAI, isso pode acontecer com 30% a 50% dos alérgicos ao látex. Explicamos em síndrome látex-fruta e em alergia a banana.

Como é feito o diagnóstico
Segundo a WAO, o passo mais importante é a história: o que aconteceu, depois de quanto tempo e com qual objeto. Depois podem entrar o teste cutâneo e o exame de sangue para IgE. Esses exames não servem para triagem de quem nunca teve sintoma. Um exame negativo não descarta a alergia quando a história é forte, e por isso o olhar do alergista conta muito.
O que as fontes descrevem como cuidado
Não existe remédio que cure a alergia ao látex. O que a ASBAI e a WAO descrevem:
- Evitar o contato com látex, com materiais de outros tipos, como nitrila, vinil ou silicone.
- Deixar a alergia registrada no prontuário médico e no dentista.
- Usar uma identificação, como cartão ou pulseira.
- Ter um plano por escrito, combinado com o médico, para o caso de reação.
A ASBAI lembra que a orientação de marcar quem tem alergia ao látex como a primeira cirurgia do dia nem sempre é seguida. Vale conversar com a equipe antes de qualquer procedimento.
A caneta de adrenalina, que a WAO cita para quem tem risco de anafilaxia, não tem registro na Anvisa; segundo a ASBAI, o acesso hoje é por importação excepcional, com prescrição médica. Converse com o alergista sobre qual é o plano no seu caso.
Fontes
- WAO — Latex Allergy: Diagnosis and Management (atualizado 2022)
- ASBAI — Anafilaxia ao látex
- ASBAI — Quase 10% dos profissionais da saúde têm alergia ao látex (2021)
- Wu M, McIntosh J, Liu J. J Occup Health, 2016
- Bueno de Sá A et al. J Investig Allergol Clin Immunol, 2013
- Yeh WSC et al. Rev Bras Anestesiol, 2012
- Lei 12.849/2013
- Anvisa — RDC nº 924/2024 (rótulo de produtos para a saúde com látex)
- ASBAI — Adrenalina autoinjetável: importação
Perguntas frequentes
Quais são os sintomas de alergia ao látex?
Coceira, vermelhidão e vergões onde o látex tocou, inchaço, coriza, chiado e, no caso mais grave, anafilaxia. Falta de ar ou garganta fechando: ligue 192.
Alergia ao látex tem cura?
Não existe remédio que cure. O que as fontes descrevem é evitar o látex, trocar por outros materiais e ter um plano combinado com o alergista.
Alergia a borracha é a mesma coisa que alergia ao látex?
Nem sempre. Vermelhidão e coceira que aparecem horas ou dias depois costumam ser reação aos químicos da borracha, e não à proteína do látex. O alergista ajuda a diferenciar.
Quem tem alergia ao látex pode fazer cirurgia?
Pode, mas a equipe precisa saber antes para preparar o material sem látex. Avise o cirurgião, o anestesista e o hospital com antecedência.
Quem tem alergia ao látex pode usar luva de nitrila ou vinil?
Nitrila e vinil estão entre os materiais citados pela ASBAI como alternativas ao látex. Confirme com o alergista o que serve para você.