Neste texto (7 partes)
A síndrome látex-fruta é quando uma pessoa com alergia ao látex da seringueira também reage a certas frutas e vegetais, como banana, abacate, kiwi e mamão. Isso acontece porque algumas proteínas dessas frutas são parecidas com as do látex, e o sistema imune confunde uma com a outra. Segundo a ASBAI, ela pode atingir de 30% a 50% das pessoas alérgicas ao látex.
É um tema pouco falado, mas muito útil para quem já sabe que tem alergia ao látex, e também para quem reage a várias frutas e ainda não sabe por quê.
O que é a síndrome látex-fruta
O látex natural é a seiva da seringueira, a árvore da borracha. Ele tem várias proteínas que podem causar alergia. Algumas frutas têm proteínas de defesa muito parecidas com elas.
Uma revisão clássica sobre a síndrome explica que o principal suspeito é um grupo de proteínas das plantas chamado quitinases de classe I, que lembram a heveína, uma das proteínas mais importantes do látex. Quando o corpo já produz anticorpos contra o látex, esses anticorpos podem reconhecer a proteína da fruta também. É a chamada reação cruzada. A revisão de 2024 sobre a síndrome acrescenta que outras proteínas do látex, como as profilinas e as proteínas de transferência de lipídeos (LTP), também podem participar.
Segundo a pesquisa de doutorado feita na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e contada pelo Jornal da USP em 2019, quem é alérgico à borracha pode ter ou desenvolver depois alergia a frutas como mamão, figo e banana.
O caminho contrário é menos comum. O Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar, da SBP e da ASBAI, estima que só cerca de 11% das pessoas que reagem a essas frutas desenvolvem alergia ao látex.
Síndrome látex-fruta: quais frutas
As frutas mais citadas mudam um pouco de fonte para fonte, mas algumas aparecem sempre:
- Banana
- Abacate
- Kiwi
- Mamão
- Castanha (a castanha portuguesa)
- Maracujá, citado pelo Consenso Brasileiro entre as frutas mais clássicas da síndrome
A revisão de 2024 sobre os 30 anos de pesquisa da síndrome aponta banana, abacate, kiwi e mamão como as frutas mais frequentes, e a banana foi a mais comum em 9 dos 14 estudos analisados.
Outras fontes também citam:
- Pêssego e figo, na lista da ASBAI.
- Tomate e batata, na lista da Organização Mundial de Alergia (WAO).
- Melão, na pesquisa da USP divulgada pelo Jornal da USP.
- Mandioca, destacada pelo Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar entre os alimentos que entraram na lista mais recentemente, com relato de caso publicado. É algo importante para o Brasil, onde a mandioca está em todo lugar, mas ainda é pouco estudado.
- Pimentão e avelã, na tabela de reações cruzadas do mesmo Consenso Brasileiro.
Uma coisa importante: estar na lista não quer dizer que a pessoa vai reagir a todas essas frutas. Cada caso é diferente, e só o alergista consegue dizer quais merecem cuidado para você.

Quanto ela é comum
Os números variam muito. Na revisão de 2024, a frequência da síndrome entre alérgicos ao látex foi de 4% a 88%, conforme o país, o tamanho do estudo e o jeito de diagnosticar. A faixa mais citada, de 30% a 50%, aparece na ASBAI, no Consenso Brasileiro e na WAO.
No Brasil, os dados são poucos e vêm de grupos específicos. Num estudo no Rio de Janeiro com crianças com mielomeningocele, 14 de 30 (46,6%) tinham anticorpos contra o látex e 4 de 29 (13,7%) contra a banana, numa amostra pequena.
Não é a mesma coisa que a síndrome pólen-fruta
Existe outra reação cruzada parecida, entre pólen e frutas cruas, que costuma dar coceira e inchaço só na boca (a síndrome da alergia oral). Segundo o Consenso Brasileiro, ela é bastante frequente na Europa, mas raramente descrita no Brasil. Quem separa uma da outra é o alergista.

Sintomas da síndrome látex-fruta
Depois de comer a fruta, podem aparecer:
- Coceira ou formigamento na boca e na garganta.
- Vergões vermelhos e coceira na pele.
- Inchaço de lábios, olhos ou rosto.
- Vômito, dor de barriga ou diarreia.
- Chiado, tosse ou falta de ar.
Nem sempre fica só na boca. Na revisão de 2024, 73% dos sintomas relatados com frutas nessas pessoas atingiram o corpo, e não só a boca.
Sinais de emergência
Falta de ar, voz rouca, garganta fechando, inchaço na língua, tontura, desmaio ou vômitos repetidos depois de comer uma fruta (ou depois de contato com látex) pedem ajuda na hora: ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro. Saiba mais em anafilaxia.
Quem tem mais risco
Os grupos com mais alergia ao látex são também os que mais aparecem com a síndrome látex-fruta. A ASBAI cita:
- Profissionais de saúde, pelo uso frequente de luvas.
- Pessoas que passaram por muitas cirurgias, principalmente desde a infância, como crianças com mielomeningocele.
- Trabalhadores da indústria da borracha.
Explicamos melhor em alergia ao látex.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é com o alergista. Ele junta a história (o que você comeu, o que tocou, quanto tempo depois veio a reação) com exames como teste cutâneo, IgE no sangue e, quando faz sentido, teste de provocação em ambiente preparado.
A revisão de 2024 defende testar várias frutas e, quando possível, usar exames que olham proteína por proteína, porque ajudam a entender de onde vem a reação.
O que perguntar ao alergista
Leve para a consulta:
- Quais frutas já deram reação, e como foi cada uma.
- Se já houve reação com luva, balão, camisinha ou em dentista e cirurgia.
- Quais frutas da lista você come sem problema.
- O que fazer se acontecer uma reação, de preferência por escrito.
- Se vale avisar no hospital, no dentista e na escola sobre o látex.

Rótulo: o látex aparece, a fruta não
A RDC 727/2022 da Anvisa, que hoje reúne as regras de rótulo de alimentos e substituiu a antiga RDC 26/2015, mantém o látex natural na lista de alergênicos que precisam aparecer no aviso "Alérgicos: contém". Mas as frutas não estão na lista. Banana, abacate, kiwi e mamão aparecem só na lista de ingredientes. Por isso, quem tem a síndrome precisa ler os ingredientes com calma, principalmente de papinhas, vitaminas, bolos, sorvetes e barrinhas.
Para a banana em especial, veja alergia a banana.
Fontes
- ASBAI — Anafilaxia ao látex
- Blanco C. Latex-fruit syndrome. Curr Allergy Asthma Rep, 2003
- Revisiting Latex-Fruit Syndrome after 30 Years of Research (revisão, 2024)
- WAO — Latex Allergy: Diagnosis and Management (atualizado 2022)
- Jornal da USP — Presentes nas frutas, proteínas similares às do látex podem causar alergia
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2018 — Parte 1 (SBP e ASBAI)
- Relato de caso de reação à mandioca na síndrome látex-fruta (Clin Transl Allergy, 2013)
- Machado M et al. Rev Assoc Med Bras, 2004
- Anvisa — RDC nº 727/2022 (Anexo III, item 18: látex natural)
Perguntas frequentes
O que é a síndrome látex-fruta?
É quando quem tem alergia ao látex reage também a algumas frutas, porque elas têm proteínas parecidas com as do látex.
Quais frutas fazem parte da síndrome látex-fruta?
As mais citadas são banana, abacate, kiwi, mamão e castanha portuguesa; o Consenso Brasileiro inclui também o maracujá. Aparecem ainda pêssego, figo, melão, tomate, batata, pimentão e, com menos estudos, mandioca. Ninguém reage a todas: quem avalia é o alergista.
Quem tem alergia ao látex pode comer banana?
Depende de cada pessoa. Muitas comem sem problema, outras reagem. Converse com o alergista sobre quais frutas merecem cuidado no seu caso.
A síndrome látex-fruta pode ser grave?
Pode. A reação nem sempre fica só na boca. Falta de ar, garganta fechando ou desmaio: ligue 192.
Tem tratamento?
O que as fontes descrevem é evitar o látex e as frutas que causam reação, com um plano por escrito combinado com o alergista para o caso de reação.