Neste texto (8 partes)
Alergia a dipirona é uma reação do corpo a esse analgésico muito usado no Brasil. Os sintomas mais comuns são urticária, coceira e inchaço nos olhos ou nos lábios, que aparecem minutos a horas depois da dose. Às vezes a reação também acontece com outros anti-inflamatórios, por isso quem teve reação precisa de avaliação com o alergista antes de usar outro analgésico. Falta de ar, inchaço na garganta ou bolhas na pele são emergência: ligue 192.
Por que a dipirona aparece tanto nas conversas sobre alergia
A dipirona, também chamada de metamizol, é vendida sem receita no Brasil e está em todo lugar. Um estudo com registros de 384.668 pessoas que usaram dipirona entre 2015 e 2017, numa base de dados de um plano de saúde, mostrou que 28,2% delas eram crianças e adolescentes. No mesmo estudo, entre as pessoas com dor ou febre que tinham algum remédio anotado, a dipirona foi de longe a mais usada (91,4%) (Sznejder et al., revista Einstein, 2022; o estudo foi financiado por uma fabricante de dipirona e os dados são de quem tem plano de saúde).
Quanto mais gente usa um remédio, mais reações aparecem. A Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) cita os anti-inflamatórios, como dipirona e ibuprofeno, entre os remédios mais envolvidos em alergia no Brasil, ao lado dos antibióticos da família da penicilina.
Sintomas de alergia a dipirona
As reações a remédio se dividem pelo tempo em que aparecem (ASBAI):
Reação imediata (minutos a poucas horas depois):
- urticária, aqueles vergões que coçam e mudam de lugar;
- inchaço nos olhos, nas pálpebras ou nos lábios;
- vermelhidão e coceira pelo corpo;
- falta de ar, chiado, aperto no peito;
- vômitos, tontura, queda de pressão (anafilaxia).
Reação tardia (horas ou dias depois):
- manchas vermelhas pelo corpo;
- mais raramente, bolhas e feridas na boca e nos olhos.
A forma tardia grave mais conhecida é a síndrome de Stevens-Johnson. Num grupo de 108 pessoas com Stevens-Johnson atendidas no serviço de oftalmologia da Escola Paulista de Medicina, em São Paulo, a dipirona era o remédio mais usado antes dos sintomas, em cerca de 38% dos casos (Frontiers in Medicine, 2021). O número mostra de onde vieram os casos naquele grupo, não o risco de quem toma dipirona, que é muito usada. É uma reação rara, mas é bom conhecer os sinais: veja síndrome de Stevens-Johnson.
Dois tipos de reação: por que isso importa

Aqui está o ponto que mais gera dúvida. A dipirona faz parte do grande grupo dos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), junto com ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida, AAS e outros. As reações a esse grupo podem ser de dois tipos:
- Reação cruzada: em boa parte das pessoas, a reação não é uma alergia clássica, com anticorpos. Ela vem do jeito como esses remédios agem no corpo (bloqueando uma enzima chamada COX-1). Por isso a reação pode se repetir com outros anti-inflamatórios, mesmo com fórmulas diferentes (diretriz europeia EAACI/ENDA, 2011).
- Reação seletiva: a pessoa reage só a um remédio, ou a um grupo pequeno, e tolera os outros. Aqui pode haver alergia com anticorpos. Entre os anti-inflamatórios, as pirazolonas, grupo da dipirona, são as que mais causam esse tipo de reação (estudo na Scientific Reports, 2016).
Só a avaliação mostra em qual grupo a pessoa está. A ASBAI explica que, depois de uma reação a anti-inflamatórios, a reação cruzada com outros do mesmo grupo é uma preocupação, e por isso a escolha de um analgésico alternativo é feita pelo médico. A diretriz americana de alergia a medicamentos (AAAAI/ACAAI, 2022) também separa as reações a anti-inflamatórios por tipo, porque cada tipo pede um cuidado diferente.
E quem tem urticária crônica precisa de atenção extra: a diretriz internacional de urticária (2026) conta que os anti-inflamatórios pioram as crises em até um quarto dessas pessoas.
“Quem tem alergia a dipirona pode tomar ibuprofeno?”
Essa é a pergunta mais buscada sobre o tema, e a resposta honesta é: depende de cada pessoa, e quem decide é o médico. Por causa da reação cruzada explicada acima, não dá para dizer que um analgésico ou anti-inflamatório é seguro para quem reagiu à dipirona sem avaliar o caso.
O alergista pode indicar um teste de provocação: o remédio alternativo é dado em doses que aumentam aos poucos, em hospital ou ambulatório preparado para emergências, com equipe treinada. Um dos objetivos desse teste é justamente achar uma opção segura para a pessoa e descartar a reação cruzada (ASBAI). Não é algo para testar em casa.
Atenção à dipirona “escondida”
A dipirona aparece em combinações, como antigripais e remédios para cólica. A ASBAI orienta manter uma lista dos anti-inflamatórios que causaram reação e consultá-la antes de qualquer remédio novo, especialmente antigripais.

Agranulocitose não é alergia
Muita gente mistura as duas coisas. A agranulocitose é uma queda forte de um tipo de glóbulo branco, um efeito raro e grave da dipirona, mas diferente da alergia com urticária ou anafilaxia.
- A dipirona não é vendida nos Estados Unidos nem no Reino Unido, e a agranulocitose é o efeito ligado a essa decisão (revista Einstein, 2022).
- O estudo LATIN, na América Latina (citado pelo mesmo artigo), encontrou agranulocitose por qualquer causa em 0,38 caso por milhão de pessoas por ano (0,35 no Brasil) e não achou relação significativa com o uso anterior de dipirona. As estimativas variam entre países e estudos.
- A agência europeia de medicamentos (EMA) revisou o tema em setembro de 2024: concluiu que os benefícios continuam maiores que os riscos, manteve a agranulocitose como efeito raro ou muito raro e reforçou os alertas. Febre, calafrios, dor de garganta ou feridas na boca, no nariz ou nos genitais, durante o uso ou logo depois, pedem atendimento médico urgente (EMA).
Quando é emergência
Depois de tomar dipirona, ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro se aparecer:
- falta de ar, chiado, aperto na garganta, voz rouca;
- inchaço nos lábios, na língua ou no rosto;
- tontura, desmaio, pele fria;
- urticária espalhada com vômitos ou dor de barriga;
- bolhas, pele soltando, feridas na boca ou nos olhos.
Na anafilaxia, o primeiro tratamento é a adrenalina, aplicada pela equipe de saúde (Organização Mundial de Alergia, 2020). Veja a página de anafilaxia.
Depois da reação
- Anote o nome do remédio, a dose, a hora em que tomou e quando começaram os sintomas. Tire fotos da pele.
- Leve tudo ao alergista para investigar.
- Registre a alergia no celular e avise sempre médicos, dentistas e farmácia.
- Se quiser, notifique a suspeita à Anvisa pelo VigiMed.
Para entender o quadro geral, leia alergia a medicamento: sintomas, tipos e como confirmar. Na comunidade do Alergias Brasil, quem tem alergia a dipirona troca experiências sobre investigação e dia a dia.
Fontes
- ASBAI — Quando está indicado o teste de provocação oral para medicamentos
- ASBAI — Alergia a medicamentos: perguntas e respostas
- ASBAI — Alergia a medicamentos: como identificar a reação em crianças
- Kowalski ML et al. Hipersensibilidade a AINEs: classificação, diagnóstico e manejo (EAACI/ENDA). Allergy, 2011
- Ariza A et al. Metabólitos das pirazolonas e anafilaxia seletiva ao metamizol. Sci Rep, 2016
- Sznejder H et al. Uso de metamizol (dipirona) pela população brasileira. Einstein, 2022
- Wakamatsu TH et al. Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica com complicações oculares graves no Brasil. Front Med, 2021
- Khan DA et al. Alergia a medicamentos: atualização 2022 do parâmetro de prática (AAAAI/ACAAI). J Allergy Clin Immunol, 2022
- Zuberbier T et al. Diretriz internacional de urticária. Allergy, 2026
- EMA — Medidas para reduzir desfechos graves da agranulocitose com metamizol (2024)
- Cardona V et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020
- Anvisa — VigiMed
Perguntas frequentes
Quais são os sintomas de alergia a dipirona?
Os mais comuns são urticária, coceira e inchaço nos olhos ou nos lábios, minutos a horas depois da dose. Mais raramente, falta de ar, queda de pressão ou bolhas na pele, que são emergência: ligue 192.
Quem tem alergia a dipirona pode tomar ibuprofeno ou paracetamol?
Depende de cada pessoa. A reação a anti-inflamatórios pode se repetir com outros do mesmo grupo, então a escolha do analgésico é feita pelo médico, às vezes com teste de provocação em ambiente preparado.
Alergia a dipirona pode matar?
Reações graves, como anafilaxia e Stevens-Johnson, são raras, mas podem ser perigosas. Por isso falta de ar, inchaço na garganta ou bolhas na pele pedem atendimento imediato pelo 192.
Qual é o nome da dipirona na bula?
Dipirona também é chamada de metamizol e faz parte do grupo das pirazolonas. Ela aparece em combinações, como antigripais e remédios para cólica, por isso vale ler a composição.
Como saber se tenho alergia a dipirona?
Com o alergista, que começa pela história da reação e pode indicar testes. O teste de provocação é feito só em hospital ou ambulatório especializado.