Neste texto (8 partes)
Alergia a penicilina é uma das alergias a remédio mais anotadas em prontuário, mas a maioria das pessoas que carregam esse rótulo não é alérgica de verdade quando é investigada. Os sintomas de uma alergia real vão de urticária e inchaço até, raramente, anafilaxia. A boa notícia é que dá para investigar com o alergista, e muita gente volta a poder usar o antibiótico. Falta de ar ou inchaço na garganta depois de uma dose são emergência: ligue 192.
O que é alergia a penicilina
A penicilina é a avó de uma família grande de antibióticos, os betalactâmicos, que inclui também a amoxicilina, a ampicilina e as cefalosporinas. A Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) cita os betalactâmicos entre os remédios mais envolvidos em alergia no Brasil.
A alergia acontece quando o sistema de defesa reage ao antibiótico como se fosse uma ameaça. É diferente de efeito colateral, como diarreia ou enjoo, que muitos antibióticos causam e que não é alergia.
Sintomas de alergia a penicilina
As reações a remédio se dividem pelo tempo em que aparecem (ASBAI):
- Imediata (minutos a poucas horas): urticária, inchaço nos olhos e nos lábios, falta de ar, chiado, vômitos, queda de pressão.
- Tardia (horas a dias): manchas vermelhas pelo corpo, às vezes com coceira; mais raramente, bolhas e reações que atingem órgãos.
Manchas na pele durante uma infecção, porém, nem sempre são alergia. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) explica que, em crianças, a maioria dessas reações leves não é alergia verdadeira: vem da própria infecção ou da interação entre o remédio e o micróbio. Falamos mais disso em alergia a amoxicilina.
Por que tantos rótulos estão errados
Os números das fontes são parecidos:
- Nos Estados Unidos, de 8% a 10% da população diz ter alergia à penicilina, mas menos de 10% desses casos se confirmam depois de uma investigação completa (ASBAI).
- Entre crianças rotuladas como alérgicas, mais de 90% toleraram o antibiótico quando foram investigadas ou testadas (SBP).
- 75% dessas crianças receberam o rótulo antes dos 3 anos de idade (SBP).
- E a alergia verdadeira tende a diminuir: cerca de 80% das pessoas se tornam tolerantes depois de uma década (SBP).
Ou seja: muita gente adulta carrega até hoje um rótulo que veio de uma mancha na infância.

O que perde quem tem o rótulo errado
Parece prudente fugir da penicilina “por via das dúvidas”, mas isso tem custo. Segundo a SBP e a ASBAI:
- o médico precisa escolher antibióticos que podem ser mais caros e menos eficazes;
- algumas alternativas são mais tóxicas ou injetáveis, o que pode levar a internações desnecessárias;
- o uso dessas alternativas aumenta a resistência das bactérias aos antibióticos.
Como o alergista investiga
A investigação começa pela história: qual remédio, quando, que sintomas, quanto tempo depois. Fotos da reação ajudam muito, e a SBP recomenda registrar a pele na fase aguda, porque crianças descrevem pior o que sentem.
Depois, conforme o caso, o alergista pode usar (ASBAI):
- testes de pele com o antibiótico;
- exames de sangue, disponíveis para poucos remédios, entre eles penicilina e amoxicilina, só para reações imediatas e com sensibilidade baixa, então um resultado negativo não descarta a alergia;
- teste de provocação, com o remédio dado aos poucos, sob observação, em hospital ou ambulatório preparado para emergências (ASBAI).
O teste de provocação também serve para ver se a pessoa tolera outro antibiótico da mesma família. É por isso que a pergunta “quem tem alergia a penicilina pode tomar tal antibiótico?” não tem resposta pronta: depende do tipo de reação e da investigação, e quem decide é o médico.
A diretriz americana de alergia a medicamentos (AAAAI/ACAAI, 2022) vai na mesma linha e pede um esforço ativo para tirar rótulos errados de alergia à penicilina. Ela descreve que, quando a história é de baixo risco, o alergista muitas vezes pode fazer direto o teste de provocação, sem teste de pele antes. Já depois de anafilaxia ou de reação grave, o caminho é outro, mais cuidadoso.

Penicilina, gravidez e sífilis
Esse é um caso em que tirar a dúvida faz muita diferença. A penicilina benzatina é o único tratamento reconhecido como eficaz para evitar a sífilis congênita no bebê, porque atravessa a placenta (CIB-SP, 2017; ASBAI).
O que as fontes dizem:
- A deliberação da Comissão Intergestores Bipartite de São Paulo (nº 67, de 2017) afirma que a reação anafilática à penicilina benzatina é um evento extremamente raro e que as reações mais comuns são do tipo vasovagal, com ansiedade, medo e suor ligados à dor da injeção (CIB-SP).
- Para a gestante com suspeita de alergia, a ASBAI descreve a investigação com história, testes e provocação. Se os testes forem negativos, a benzatina é aplicada normalmente. Se algum for positivo, é feita a dessensibilização em hospital, por alergistas treinados.
Se você está grávida e tem o rótulo de alergia à penicilina, converse com a equipe do pré-natal o quanto antes.

Quando é emergência
Depois de uma dose de penicilina ou de outro antibiótico, ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro se aparecer:
- falta de ar, chiado, aperto na garganta;
- inchaço nos lábios, na língua ou no rosto;
- tontura, desmaio, pele fria;
- bolhas, pele soltando, feridas na boca ou nos olhos.
Na anafilaxia, o primeiro tratamento é a adrenalina, aplicada pela equipe de saúde (Organização Mundial de Alergia, 2020). Veja a página de anafilaxia.
Para guardar
- Se a alergia à penicilina foi anotada há muitos anos, vale conversar com o alergista sobre investigar.
- Anote sempre o remédio, a dose, o horário e os sintomas de qualquer reação, com foto.
- Avise médicos e dentistas, e registre a alergia confirmada ou descartada.
Para o quadro geral, veja alergia a medicamento: sintomas, tipos e como confirmar. Na comunidade do Alergias Brasil, a gente troca experiências sobre investigação e sobre como tirar um rótulo errado.
Fontes
- SBP — Documento científico sobre alergia à penicilina (2020)
- ASBAI — Você acha que é alérgico a medicamento, mas pode não ser
- ASBAI — Alergia a medicamentos: perguntas e respostas
- ASBAI — Alergia a medicamentos: como identificar a reação em crianças
- ASBAI — Quando está indicado o teste de provocação oral para medicamentos
- CIB-SP — Deliberação nº 67/2017 sobre a aplicação de penicilina benzatina na Atenção Básica
- Khan DA et al. Alergia a medicamentos: atualização 2022 do parâmetro de prática (AAAAI/ACAAI). J Allergy Clin Immunol, 2022
- Cardona V et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020
Perguntas frequentes
Quais são os sintomas de alergia a penicilina?
Na reação imediata: urticária, inchaço nos olhos e lábios, falta de ar, vômitos e queda de pressão. Na tardia: manchas pelo corpo e, raramente, bolhas. Falta de ar ou inchaço na garganta são emergência: ligue 192.
Alergia a penicilina passa?
Pode passar. Segundo a SBP, cerca de 80% das pessoas deixam de ser alérgicas depois de uma década. Só a investigação com o alergista mostra como está o seu caso.
Como saber se tenho alergia a penicilina?
Com o alergista, que começa pela história da reação e pode indicar testes de pele, exames de sangue e teste de provocação em ambiente preparado.
Quem tem alergia a penicilina pode tomar outro antibiótico?
Depende do tipo de reação e da investigação. A penicilina faz parte de uma família de antibióticos, e a escolha de uma alternativa segura é feita pelo médico.
Grávida com alergia a penicilina pode tratar sífilis?
A penicilina benzatina é o único tratamento reconhecido como eficaz para evitar a sífilis congênita. A ASBAI descreve a investigação e, se preciso, a dessensibilização em hospital. Converse com a equipe do pré-natal.