Neste texto (7 partes)
Alergia a salmão é uma forma de alergia a peixe. Muitas pessoas que reagem ao salmão reagem também a outros peixes, porque a proteína principal, a parvalbumina, é parecida entre as espécies. Mas há quem reaja só ao salmão e à truta. Saber quais peixes você tolera depende de avaliação com o alergista, e no sushi ainda entram o peixe cru, outros frutos do mar e o parasita Anisakis.
O que causa a alergia a salmão
Como em toda alergia a peixe, a reação costuma ser do tipo mediado por IgE, que costuma aparecer logo ou nas primeiras duas horas depois de comer, segundo o Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar, da SBP e da ASBAI e o consenso italiano sobre alergia a peixe (2023).
A proteína principal é a parvalbumina. Ela resiste ao calor e aguenta o cozimento, segundo um estudo de 2023 sobre os alérgenos do peixe. Por isso salmão grelhado, assado ou cozido continua causando reação em quem tem alergia, assim como o cru.
Quem tem alergia a salmão tem alergia a todos os peixes?

Nem sempre. Segundo a revisão de Dijkema e colegas sobre alergia a peixe:
- entre pessoas alérgicas à parvalbumina, 59% reagiram a vários peixes e 41% toleraram uma ou mais espécies;
- numa série de 62 pacientes, 15% (9 pessoas) reagiam só aos salmonídeos, o grupo do salmão e da truta.
Ou seja, há quem tenha alergia "só a salmão", mas é a minoria. E não dá para descobrir isso por conta própria.
E o atum?
A mesma revisão de Dijkema mostra que o atum tem bem pouca parvalbumina (menos de 0,05 mg por grama, contra bem mais no salmão). O consenso italiano sobre alergia a peixe (2023) explica que atum e peixe-espada têm carne mais escura, com menos parvalbumina, e que o enlatamento muda essa proteína e reduz a capacidade de causar alergia; por isso o atum em lata costuma ser o primeiro peixe que o alergista considera testar. Num resumo apresentado no congresso americano de alergia em 2024, 14 de 21 pessoas (66,7%) toleraram atum em lata.
Mas há o outro lado: num estudo de 2023 com 53 alérgicos a peixe, o sangue de 8% a 17% reagiu a proteínas do atum em lata e de 43% a 45% às do salmão em lata. Os autores concluem que peixe enlatado pode não ser seguro para todos.
Isso não quer dizer que atum em lata é liberado para quem tem alergia a peixe. Esses resultados vêm de testes feitos com o médico, em ambiente preparado. Quem decide se vale testar outro peixe, e qual, é o alergista.
Como saber quais peixes eu tolero
O caminho passa pelo alergista. Segundo a diretriz europeia de diagnóstico de alergia alimentar (EAACI, 2023) e o Consenso Brasileiro, parte 2, a avaliação junta:
- a sua história (que peixe, como estava preparado, o que você come sem problema);
- teste de pele e/ou IgE específica no sangue;
- exames por componentes, como a parvalbumina, que podem ajudar a separar quem reage a muitos peixes de quem reage a poucos, embora o resultado nem sempre bata com o que a pessoa tolera na prática;
- quando faz sentido, o teste de provocação oral com um peixe específico, feito no consultório ou hospital.
Testar em casa, com "um pedacinho" de outro peixe, não é seguro.
Sintomas e quando ligar 192
A alergia a salmão pode causar coceira, placas vermelhas na pele, inchaço de lábios e olhos, coceira na boca, vômito, diarreia, tosse e chiado. Veja a lista completa em alergia a peixe.
Ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro se aparecer falta de ar, chiado, rouquidão, inchaço na língua ou na garganta, tontura, desmaio ou vômitos repetidos. Esses são sinais de anafilaxia. Segundo a Organização Mundial de Alergia (WAO, 2020), o primeiro tratamento é a adrenalina, e o antialérgico comum não a substitui.
Sushi e temaki: o que considerar
O salmão é a estrela do sushi no Brasil. Para quem tem alergia a salmão ou a peixe, o rodízio japonês junta alguns pontos de atenção:
- O próprio peixe cru: tem a mesma parvalbumina do cozido.
- Contato no balcão: a mesma tábua e a mesma faca cortam salmão, atum, peixe branco e camarão.
- Kani: é feito de pasta de peixe (surimi), não de caranguejo, segundo a Virginia Tech.
- Molhos e caldos: alguns pratos asiáticos levam molho de peixe ou caldo dashi, feito com bonito.
- Frituras: o óleo do tempurá costuma ser compartilhado.
- Anisakis: parasita que pode estar em peixe cru e também causa alergia. A Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos (EFSA, 2010) considerou o risco desprezível no salmão do Atlântico criado em cativeiro com ração. Explicamos em Anisakis e alergia.
Se o alergista confirmou que você tolera alguns peixes, a conversa no restaurante fica mais fácil: dá para perguntar como é feito o corte e se é possível preparar o seu prato separado.

Salmão no rótulo e em outros produtos
Alimentos embalados com peixe precisam avisar "ALÉRGICOS: CONTÉM PEIXE" (ou "CONTÉM DERIVADOS DE PEIXE") ou "PODE CONTER PEIXE", em caixa alta e negrito, logo depois ou abaixo dos ingredientes, segundo a RDC 26/2015 da Anvisa, hoje na RDC 727/2022. Atenção a patês, cream cheese temperado, salgados e caldos prontos.
E os produtos que não são comida? Muita gente pergunta sobre ômega 3, gelatina, colágeno e o PDRN, usado em estética e feito a partir de DNA de peixe. O que se sabe até agora é pouco:
- Óleo de peixe (ômega 3): num estudo pequeno de 2008, 6 pessoas alérgicas a peixe tomaram duas cápsulas de óleo de peixe no consultório e nenhuma reagiu. Seis pessoas é muito pouco para tirar conclusão; existem também fontes de ômega 3 de algas e plantas, segundo a revisão de Dijkema.
- Gelatina e colágeno de peixe: a mesma revisão diz que a capacidade da gelatina de peixe causar alergia ainda não está clara: num estudo, nenhum de 30 alérgicos ao bacalhau reagiu à gelatina de pele de bacalhau, mas há relato de anafilaxia. O colágeno do peixe também é reconhecido como alérgeno em parte dos alérgicos, segundo um estudo de 2023.
- PDRN: não encontramos estudo sobre o risco para quem tem alergia a peixe.
Leve a lista de tudo o que você usa ou pretende usar ao alergista e ao médico que vai prescrever ou aplicar.
Salmão ou camarão?
Muita gente junta os dois como "frutos do mar", mas são alergias diferentes. O camarão causa alergia por outra proteína, a tropomiosina, segundo uma revisão sobre alergia a frutos do mar. Ter alergia a salmão não quer dizer ter alergia a camarão; reação cruzada entre peixe e crustáceo existe, mas é rara, segundo o consenso italiano (2023). Quem confirma é o alergista.
Fontes
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2018, parte 1 (SBP e ASBAI)
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2018, parte 2 (SBP e ASBAI)
- Mastrorilli C et al. Alergia a peixe na infância: consenso da Sociedade Italiana de Alergia e Imunologia Pediátrica. Medicina 2023 (PubMed)
- Dijkema D et al. Fish allergy: fishing for novel diagnostic and therapeutic options. Clin Rev Allergy Immunol 2022 (PMC)
- Taki AC et al. Thermostable allergens in canned fish. Allergy 2023 (PubMed)
- Mark BJ et al. Are fish oil supplements safe in finned fish-allergic patients? 2008 (PubMed)
- EFSA: avaliação dos parasitas em peixes (2010)
- Virginia Tech: fontes escondidas de alergênicos
- Real-world sensitization and tolerance pattern to seafood in fish-allergic individuals, AAAAI 2024
- EAACI guidelines on the diagnosis of IgE-mediated food allergy, 2023 (PubMed)
- World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020 (PubMed)
- Wong L et al. An update on shellfish allergy, 2019 (PubMed)
- Anvisa, RDC 26/2015
- Anvisa, RDC 727/2022
Perguntas frequentes
Alergia a salmão é alergia a peixe?
Sim, é uma forma de alergia a peixe. Muitas pessoas que reagem ao salmão reagem a outros peixes, mas há quem reaja só ao salmão e à truta.
Quem tem alergia a salmão pode comer outros peixes?
Depende. Numa revisão, 41% dos alérgicos à parvalbumina toleraram pelo menos um peixe. Quem diz quais peixes você tolera é o alergista, às vezes com teste de provocação no consultório.
Salmão cozido dá menos alergia que o cru?
A parvalbumina resiste ao calor, então o salmão cozido também causa reação em quem tem alergia.
Quem tem alergia a salmão pode comer sushi?
Além do salmão, o sushi pode ter contato com outros peixes e frutos do mar no balcão. Converse com o alergista sobre o que você tolera e pergunte ao restaurante como o prato é preparado.
Quem tem alergia a salmão pode usar PDRN ou colágeno de peixe?
Sobre PDRN, não encontramos estudo. Sobre colágeno e gelatina de peixe, os dados são poucos e o colágeno pode causar reação em parte dos alérgicos. Leve a pergunta ao alergista e a quem vai prescrever ou aplicar o produto.
Na comunidade do Alergias Brasil, quem tem alergia a peixe troca experiência sobre comida japonesa, rótulo e o que perguntar na consulta.