Neste texto (10 partes)
Alergia a amendoim é uma reação do sistema imune às proteínas do amendoim. Ela costuma aparecer de minutos a cerca de duas horas depois de comer, com coceira na boca, placas na pele, inchaço, vômito ou chiado, e é uma das alergias alimentares mais ligadas à anafilaxia, a reação grave. Em geral começa na infância e costuma durar, mas uma parte das crianças perde a alergia. O diagnóstico e o plano de cuidado são feitos com o alergista.
O que é a alergia a amendoim
É uma alergia alimentar do tipo mediado por IgE, a reação rápida, como explica o Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar, da SBP e da ASBAI. O sistema imune trata as proteínas do amendoim como uma ameaça e reage.
Duas coisas que confundem bastante:
- Amendoim não é castanha. É uma leguminosa, da família do feijão e da soja. Mesmo assim, muita gente tem alergia a amendoim e a castanhas ao mesmo tempo: a atualização brasileira de 2025, da ASBAI e da SBP estima em cerca de 1 em cada 3 as pessoas com alergia a amendoim que também reagem a castanhas. Explicamos em quem tem alergia a amendoim pode comer castanha.
- Alergia não é intolerância. Reagir a pequenas quantidades de amendoim, com pele, boca, respiração ou tontura, pede avaliação com o alergista.
Uma curiosidade de escrita: "alergia a amendoim" e "alergia ao amendoim" são as duas formas corretas.

Quem tem alergia a amendoim
No Brasil não existem estatísticas oficiais sobre alergia alimentar, como afirma a ASBAI. Como referência de fora:
- Nos Estados Unidos, 2,2% das crianças têm alergia a amendoim.
- Entre os adultos americanos, 1,8%. O mesmo estudo mostrou que quase metade dos adultos com alergia alimentar desenvolveu pelo menos uma já depois de grande.
A alergia costuma começar na infância, muitas vezes no primeiro contato com o amendoim, mas pode aparecer em adulto também.
Sintomas da alergia a amendoim
Os sinais mais comuns envolvem:
- Pele e boca: coceira na boca, placas vermelhas que coçam (urticária), inchaço de lábios, olhos ou rosto.
- Barriga: vômito, dor, diarreia.
- Respiração: espirros, tosse, chiado, voz rouca, falta de ar.
- Circulação: tontura, palidez, desmaio.
Detalhamos cada um em sintomas de alergia a amendoim.
Quando ligar 192
Segundo a orientação de anafilaxia da Organização Mundial de Alergia (WAO, 2020), a reação pode começar leve e piorar em minutos. Ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro se, depois de comer algo com amendoim (ou na dúvida), aparecer:
- falta de ar, chiado, tosse que não para, voz rouca ou dificuldade para engolir;
- inchaço na língua, nos lábios ou na garganta;
- tontura, desmaio, palidez, pele fria, criança "molinha";
- vômitos repetidos ou dor de barriga forte junto com placas na pele.
A WAO lembra que o primeiro tratamento da anafilaxia é a adrenalina intramuscular, e que o antialérgico comum não trata anafilaxia. Quem tem plano de ação do médico faz o que está no plano e liga 192 mesmo assim. Veja mais em anafilaxia.
Como é feito o diagnóstico
Segundo o Consenso Brasileiro, parte 2, o alergista junta:
- a história clínica (o que comeu, quanto, em quanto tempo veio a reação);
- teste de pele e/ou IgE específica no sangue, inclusive por componentes da proteína do amendoim. Segundo a atualização da ASBAI e da SBP (2025), os componentes Ara h 2 e Ara h 6 ajudam nos casos mais difíceis e, quando positivos, se ligam a reações mais prováveis e mais fortes; já o Ara h 8, ligado ao pólen, costuma indicar reações leves;
- quando há dúvida, o teste de provocação oral, em ambiente preparado.
Teste positivo sem sintoma não é diagnóstico. E testar em casa, com "só um pouquinho", não é seguro.
O que o cuidado envolve
A diretriz europeia de alergia alimentar (EAACI, 2025) trata como essenciais:
- evitar o amendoim e aprender a ler o rótulo, com ajuda de nutricionista para manter a alimentação equilibrada;
- ter um plano de ação escrito, feito com o médico;
- para quem tem risco de anafilaxia, ter adrenalina autoinjetável prescrita.
No Brasil, nenhuma caneta de adrenalina tem registro na Anvisa, como reforçou a ASBAI em abril de 2026, segundo a IstoÉ Dinheiro. O acesso costuma ser por importação com receita, a cerca de R$ 3.000, muitas vezes pela Justiça, segundo o Poder360 (nov/2025). Converse com o alergista sobre o seu caso.
Tratamentos novos
A mesma diretriz europeia e a atualização brasileira da ASBAI e da SBP (2025) recomendam a imunoterapia oral para amendoim em crianças e adolescentes. É a oferta de quantidades pequenas e crescentes de amendoim, sempre conduzida por equipe especializada, porque pode causar reações, às vezes graves. O objetivo é reduzir o risco de reação num acidente, não liberar o amendoim.
Nos Estados Unidos, a FDA aprovou em 2024 um medicamento injetável do tipo anti-IgE para reduzir reações por exposição acidental a um ou mais alimentos, a partir de 1 ano de idade. Ele não substitui a dieta nem trata a crise. Se esses tratamentos fazem sentido no seu caso, e se estão disponíveis, é uma conversa com o alergista.
Alergia a amendoim tem cura?
Costuma durar: a atualização da ASBAI e da SBP (2025) coloca o amendoim entre as alergias mais persistentes, ao lado de castanhas, peixes e crustáceos. Mas não é para todo mundo. Num estudo americano com 223 crianças, cerca de 1 em cada 5 (21,5%) deixou de ter a alergia. Por isso o alergista reavalia de tempos em tempos.
Dá para prevenir a alergia a amendoim no bebê?
Essa é uma das perguntas em que a ciência mais mudou. Por muito tempo se recomendou atrasar o amendoim; hoje se sabe que isso não protege.
- No estudo LEAP (2015), bebês de alto risco (com eczema grave ou alergia a ovo) que comeram amendoim regularmente desde os 4 a 11 meses tiveram muito menos alergia aos 5 anos: 3,2%, contra 17,2% dos que evitaram, cerca de 81% a menos.
- O acompanhamento até a adolescência, o LEAP-Trio (2024), mostrou que a proteção continuou: 4,4% contra 15,4% aos 12 anos ou mais, segundo o NIH.
As recomendações não são iguais em todo lugar, segundo o resumo da atualização da ASBAI e da SBP (2025):
- Estados Unidos e Canadá (2021): oferecer amendoim a todos os bebês por volta dos 6 meses.
- Europa (EAACI, 2020): em países onde a alergia a amendoim é comum, oferecer na introdução alimentar, de forma adequada à idade.
- Brasil (ASBAI e SBP, 2025): como a alergia a amendoim é menos comum aqui, não há uma recomendação específica para ele. Os alimentos alergênicos entram a partir dos 6 meses, junto com os outros, sem atrasar e sem antecipar. Depois de introduzidos, oferecer com frequência ajuda a manter a tolerância. Não se recomenda fazer exame de alergia de rotina antes de introduzir.
Amendoim inteiro ou em pedaços não é comida de bebê, pelo risco de engasgo. Se o bebê tem eczema forte ou já reagiu a algum alimento, converse com o pediatra ou o alergista antes, para planejar a introdução com segurança. O passo a passo está em pasta de amendoim para bebê.

Amendoim no rótulo e na comida brasileira
Desde a RDC 26/2015 da Anvisa, hoje na RDC 727/2022, alimentos embalados precisam avisar "ALÉRGICOS: CONTÉM AMENDOIM" ou "PODE CONTER AMENDOIM", em caixa alta e negrito, logo depois dos ingredientes.
O amendoim aparece em muita coisa nossa: paçoca, pé-de-moleque, cajuzinho, amendoim japonês, pasta de amendoim, granola, barras de cereal, sorvetes e chocolates recheados. A festa junina é uma época de atenção redobrada. E comida sem embalagem (docinho de festa, padaria, restaurante) não tem rótulo: vale perguntar a receita.

Escola
A Lei 12.982/2014 garante cardápio especial na alimentação escolar pública para alunos com necessidade alimentar específica, como alergia, com laudo médico. Cada prefeitura organiza do seu jeito.
Fontes
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2018, parte 1 (SBP e ASBAI)
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2018, parte 2 (SBP e ASBAI)
- Atualização em Alergia Alimentar 2025: posicionamento conjunto da ASBAI e da SBP (Arq Asma Alerg Imunol)
- ASBAI: alergias a amendoim e castanhas aumentam entre a população pediátrica (2021)
- Gupta RS et al. Childhood food allergies in the US, Pediatrics 2018 (PubMed)
- Gupta RS et al. Food allergies among US adults, JAMA Netw Open 2019 (PubMed)
- World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020 (PubMed)
- EAACI guidelines on IgE-mediated food allergy, 2025 (PubMed)
- Skolnick HS et al. The natural history of peanut allergy, 2001 (Johns Hopkins)
- FDA: aprovação do primeiro medicamento para reduzir reações a vários alimentos (2024)
- Du Toit G et al. Estudo LEAP, N Engl J Med 2015 (PMC)
- NIH: LEAP-Trio, proteção até a adolescência (2024)
- Halken S et al. EAACI: prevenção da alergia alimentar em bebês, 2021
- IstoÉ Dinheiro: ASBAI alerta que não há autoinjetor de adrenalina aprovado no Brasil (abr/2026)
- Poder360: Brasil segue sem caneta de adrenalina (nov/2025)
- Anvisa, RDC 26/2015
- Anvisa, RDC 727/2022
- Lei 12.982/2014 (Planalto)
Perguntas frequentes
Alergia a amendoim pode matar?
Pode causar anafilaxia, uma reação grave que precisa de atendimento rápido. Por isso as diretrizes falam em plano de ação escrito e adrenalina para quem tem risco. Sinais de alerta: ligue 192.
Alergia a amendoim tem cura?
Costuma durar, mas cerca de 1 em cada 5 crianças perdeu a alergia num estudo americano. O alergista reavalia de tempos em tempos.
Alergia a amendoim pode começar em adulto?
Pode. Nos Estados Unidos, quase metade dos adultos com alergia alimentar desenvolveu pelo menos uma já depois de grande.
Dar amendoim cedo para o bebê evita a alergia?
Estudos com bebês de alto risco mostraram que oferecer amendoim cedo e com regularidade reduziu muito a alergia. No Brasil, a ASBAI e a SBP orientam introduzir os alergênicos a partir dos 6 meses, sem atrasar. Bebê com eczema forte ou que já reagiu a algum alimento: converse antes com o pediatra ou o alergista.
Amendoim é castanha?
Não. Amendoim é leguminosa, da família do feijão. Mas muita gente tem as duas alergias, e quem avalia é o alergista.
Antialérgico resolve a alergia a amendoim?
Pode aliviar coceira e placas, mas não trata anafilaxia. O primeiro tratamento da reação grave é a adrenalina. Remédio e plano são definidos com o médico.
Na comunidade do Alergias Brasil, famílias e adultos com alergia a amendoim trocam dicas de rótulo, festa e escola, sem medo e com informação.