Dia a dia

Alergia a prata, ouro e aço: o culpado costuma ser o níquel

Alergia a prata existe, mas é rara: muitas vezes o problema é o níquel da liga ou do banho. Veja prata 925, ouro, folheado, aço cirúrgico e titânio.

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Mulher negra de cabelo crespo colocando um brinco de argola prateado na orelha
Foto: Gustavo Fring, licença Pexels (uso livre), via Pexels
Neste texto (11 partes)
  1. Alergia a prata ou alergia a níquel?
  2. Os sintomas
  3. Prata 925 dá alergia?
  4. Ouro, folheado e semijoia
  5. Aço cirúrgico e aço inoxidável
  6. Titânio e platina
  7. No Brasil não há limite de níquel em joias
  8. O teste do níquel (fica rosa)
  9. O que ajuda na hora de escolher
  10. Como confirmar a alergia
  11. Sinais de alerta

Alergia a prata de verdade é rara. Muitas vezes, quem sente coceira e vermelhidão com um brinco ou anel "de prata" está reagindo ao níquel, que pode estar na liga, no metal de baixo de uma peça folheada ou no banho. Com o ouro acontece o mesmo: o ouro branco e o de baixo quilate podem ter níquel. Aço inoxidável de boa qualidade quase não solta níquel, mas peça niquelada solta muito. Quem confirma a alergia é o teste de contato, e quem diz a composição da peça é o fabricante.

Abaixo, metal por metal, o que os estudos mostram e o que perguntar antes de comprar.

Alergia a prata ou alergia a níquel?

A DermNet, referência de dermatologia da Nova Zelândia, explica que muita gente que acha que tem alergia a ouro ou prata, na verdade, tem alergia a níquel. O níquel pode aparecer como traço no ouro e na prata, e nas joias mais baratas costuma estar no metal de base, que depois recebe um banho de ouro ou de prata. Alergia a outros metais das joias é possível, mas parece rara.

Faz sentido: o níquel é a substância que mais dá reação nos testes de contato feitos no Brasil. Num estudo da Sociedade Brasileira de Dermatologia com 567 pacientes, 28,9% reagiram ao níquel (Bonamigo et al., 2026). O texto alergia a níquel explica os sintomas e onde mais ele aparece.

Os sintomas

São os da dermatite de contato alérgica, no lugar onde o metal encosta: orelha, dedo, pulso, pescoço, perto do umbigo. A pele fica vermelha, coça, descama e pode ter pequenas bolhas. Como é uma alergia tardia, a reação costuma aparecer de um a três dias depois do contato (DermNet), por isso nem sempre a pessoa liga o brinco à orelha inflamada.

Infográfico alergia a prata, ouro e aço: metal por metal, o risco de ter níquel (folheado e niquelado, ouro branco e de baixo quilate, prata 925, ouro 18 e 24 quilates, aço inoxidável de boa qualidade, platina pura, titânio), o teste do níquel que fica rosa e por que ele não garante nada, e a falta de limite de níquel em joias no Brasil
Infográfico: Dermatite de contato · Alergias Brasil

Prata 925 dá alergia?

A prata 925 é uma liga com 92,5% de prata e 7,5% de outros metais, em geral cobre (Wikipédia). A prata pura é mole demais para joia, por isso sempre há mistura.

A DermNet coloca a prata de lei entre as opções em geral mais seguras para quem tem alergia a níquel (DermNet). Mas há dois cuidados:

  • O que vai junto: fecho, pino, tarraxa e corrente podem ser de outro metal.
  • O banho: muitas peças "de prata" são, na verdade, metal comum com banho prateado. Quando o banho gasta, o metal de baixo, que pode ter níquel, encosta na pele.

Ouro, folheado e semijoia

  • Ouro 18 e 24 quilates: a DermNet cita o ouro de 18 ou 24 quilates entre os metais que não se supõe ter níquel. O de 24 quilates é ouro puro (99,9%); o de 18 tem 75% de ouro (DermNet).
  • Ouro de baixo quilate e ouro branco: o ouro de 9 quilates e o ouro branco podem conter níquel (DermNet). O ouro branco muitas vezes recebe um banho de ródio, que deixa a peça mais branca, mas o banho gasta com o tempo.
  • Folheado e semijoia: têm uma camada fina de ouro sobre outro metal. Se esse metal de base tiver níquel, a reação pode começar quando a camada se desgasta.

Existe também alergia ao próprio ouro. Em algumas séries de teste de contato, ele aparece como o metal que mais dá reação depois do níquel, mas a DermNet lembra que um teste positivo ao ouro muitas vezes não explica a dermatite do dia a dia, e que quem reage ao ouro costuma reagir também ao níquel e ao cobalto (DermNet).

Aço cirúrgico e aço inoxidável

O aço inoxidável contém níquel, mas os tipos de boa qualidade prendem o níquel e soltam muito pouco. Em estudos franceses com pessoas alérgicas ao níquel, aços inoxidáveis com pouco enxofre (tipos 304, 316L e 430) soltaram quantidades mínimas de níquel em suor artificial e não causaram reação. Já o aço com mais enxofre (tipo 303) causou reação em 14% das pessoas, e o metal niquelado (com banho de níquel), em 96% (Haudrechy et al., 1997).

Ou seja: "aço" na etiqueta não diz tudo. A Academia Americana de Pediatria cita o aço cirúrgico entre as opções para quem tem alergia a níquel (AAP/HealthyChildren), mas vale perguntar o tipo ao vendedor.

Orelha de uma mulher com dois brincos prateados, de perto
Foto: Laura Beauty Designer, via Pexels

Titânio e platina

  • Platina pura: a DermNet a cita entre os metais que não se supõe ter níquel (DermNet).
  • Titânio: costuma ser lembrado como alternativa para quem tem alergia a metal, mas ainda há poucos estudos sobre alergia ao titânio, e ela existe. Num serviço dos Estados Unidos, 26 de 166 pacientes testados por suspeita (a maioria por causa de implantes) reagiram ao titânio no teste de contato (Hoyos et al., 2024). É um grupo escolhido, não a população em geral, mas mostra que "titânio" também não é garantia absoluta.

No Brasil não há limite de níquel em joias

Na Europa, uma regra em vigor desde 2001 proíbe que objetos que ficam muito tempo encostados na pele soltem mais de 0,5 micrograma de níquel por centímetro quadrado por semana (Thyssen et al., 2011). Mesmo assim, ainda há peça fora da regra: na Dinamarca, 45 de 304 brincos comprados no comércio (14,8%) soltavam mais níquel do que o permitido (Wennervaldt et al., 2021).

No Brasil, o Inmetro regula o cádmio e o chumbo em joias e bijuterias, mas não há limite oficial para o níquel (Portaria Inmetro 43/2016). Por isso, "antialérgico" ou "hipoalergênico" na etiqueta é uma alegação da loja.

O teste do níquel (fica rosa)

Existe um teste simples, com uma solução de dimetilglioxima: passa-se um cotonete molhado na peça e, se ele ficar rosa, há níquel solto. Os produtos não estragam a joia (DermNet).

O resultado rosa é confiável, mas o cotonete sem cor não garante nada: no estudo dinamarquês, o teste só pegou de 45% a 61% dos brincos que soltavam níquel acima do limite (Wennervaldt et al., 2021). O kit pode ser pedido ao dermatologista ou encontrado à venda (DermNet).

O que ajuda na hora de escolher

  • Perguntar ao vendedor de que é feita a peça inteira, inclusive pino, fecho e tarraxa.
  • Observar a pele nos dias seguintes ao usar uma peça nova.
  • Lembrar que banho gasta: a peça que não dava alergia pode começar a dar.
  • Para brinco, prestar atenção no pino, que fica dentro do furo. A DermNet não recomenda cobrir o pino com esmalte, porque o esmalte descasca logo (DermNet).
  • Conversar com o dermatologista sobre o que faz sentido no seu caso.

Como confirmar a alergia

O exame é o teste de contato, feito pelo dermatologista ou alergista. O níquel faz parte da bateria padrão brasileira, e outros metais podem ser testados quando o médico suspeita. Levar as peças que deram reação ajuda o médico a escolher o que testar.

A dermatite melhora quando o contato acaba. Enquanto isso, o cuidado com a pele é decidido pelo médico; veja dermatite de contato: tratamento.

Sinais de alerta

Reação a joia costuma ficar na pele. Ligue 192 (SAMU) se aparecer inchaço no rosto, nos lábios ou na língua com falta de ar, chiado ou tontura. Furo de orelha muito vermelho, quente, com pus ou febre pode ser infecção e precisa de avaliação no mesmo dia.

Perguntas frequentes

Existe alergia a prata?

Existe, mas é rara. Muitas vezes, a reação a uma peça "de prata" vem do níquel da liga, do fecho ou do metal que fica embaixo do banho prateado.

Quem tem alergia a níquel pode usar prata 925?

Muitas pessoas usam sem problema, e a DermNet cita a prata de lei entre as opções mais seguras. Mas peças só banhadas a prata, fechos e pinos podem ter níquel. Pergunte a composição e converse com o dermatologista.

Quem tem alergia a níquel pode usar aço cirúrgico?

Os aços inoxidáveis de boa qualidade quase não soltam níquel e, num estudo, não causaram reação em alérgicos. O problema é o aço de pior qualidade e o metal niquelado. Como no Brasil não há limite de níquel, vale perguntar o tipo de aço.

Folheado a ouro dá alergia?

Pode dar, quando o metal de base tem níquel e a camada de ouro se desgasta. O ouro de 18 ou 24 quilates costuma ser mais seguro do que o folheado e o ouro branco.

Como saber se o brinco tem níquel?

O teste com dimetilglioxima fica rosa quando há níquel solto. Se não mudar de cor, não é garantia: o teste deixa passar parte das peças que soltam níquel.

Na comunidade do Alergias Brasil, quem tem alergia de contato troca experiência sobre brincos, relógios e o que perguntar na hora de comprar. Vem conversar com a gente.

Este texto é informação e troca de experiência; não substitui o pediatra, o alergista ou o nutricionista. Em caso de reação grave — falta de ar, inchaço no rosto ou nos lábios, vômitos repetidos, moleza — ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro.