Neste texto (7 partes)
Alergia a brinco é, na grande maioria das vezes, alergia ao níquel, metal presente em muita bijuteria e até em peças banhadas a ouro ou prata. A orelha coça, fica vermelha, descama ou solta um líquido claro no lugar do furo, em geral de um a três dias depois de usar a peça. Mas orelha vermelha também pode ser infecção do furo, principalmente se é recente, dói, incha e tem pus. Na dúvida, quem diferencia é o médico.
Aqui estão as pistas de cada uma, o que se sabe sobre o furo de orelha em crianças e o que perguntar antes de comprar um brinco.
Alergia a brinco: por que acontece
O furo da orelha deixa o metal encostado numa pele fina e machucada, por horas, todo dia. É o cenário perfeito para o corpo "aprender" a reagir ao níquel. Num estudo com 1.501 adolescentes na Dinamarca, 8,6% tinham alergia ao níquel, mais nas meninas, e a alergia estava ligada a ter furado a orelha (Mortz et al., 2002). A DermNet, referência de dermatologia da Nova Zelândia, diz que a alergia de contato é a complicação de pele mais comum dos piercings que não é infecção, que o níquel é o principal culpado e que mais furos aumentam o risco.
No Brasil, o níquel é a substância que mais dá reação no teste de contato: 28,9% dos 567 pacientes testados no estudo da Sociedade Brasileira de Dermatologia (Bonamigo et al., 2026). A alergia ao níquel tem um texto inteiro: alergia a níquel.
Sintomas de alergia a brinco
Segundo a Academia Americana de Pediatria, a alergia ao níquel dá uma erupção com coceira bem onde o metal encosta, que pode se espalhar quando o contato é constante. Na orelha, os sinais mais comuns são:
- coceira no lóbulo e em volta do furo;
- vermelhidão e pele descamando ou mais grossa;
- bolhinhas que soltam um líquido claro e viram casquinha;
- reação que volta toda vez que a mesma peça (ou outra parecida) volta.
Como é uma alergia tardia, a reação costuma aparecer de 24 a 72 horas depois do contato (DermNet). E pode surgir com uma peça que você usa há anos.
Alergia ou infecção no furo da orelha?
As duas podem deixar a orelha vermelha. Algumas pistas, para contar ao médico:
- Alergia: coça mais do que dói; pega o lóbulo dos dois lados ou só onde há bijuteria; melhora quando a peça sai e volta quando ela volta; às vezes aparece também em outro lugar onde há metal, como no botão da calça ou na pulseira do relógio.
- Infecção: dói, lateja, esquenta e incha; pode ter pus amarelado ou esverdeado; é mais comum no furo recente ou depois de um machucado; pode vir com febre.
A DermNet recomenda que pus, sangramento que não para ou outras preocupações sejam avaliados por um profissional de saúde, e lembra que furos na cartilagem (a parte dura de cima da orelha) e infecções mal cuidadas podem dar complicações mais sérias.

Furo de orelha no bebê e na criança
No Brasil, muita menina sai da maternidade com a orelha furada. A Academia Americana de Pediatria sugere, para quem quer prevenir a alergia ao níquel, adiar o furo até a criança ser mais velha e, quando furar, usar brinco de aço cirúrgico ou de outro material sem níquel até cicatrizar. É uma decisão da família, e vale conversar com o pediatra.
Um achado curioso: em dois estudos com adolescentes, usar aparelho ortodôntico de metal antes de furar a orelha foi ligado a menos alergia ao níquel depois (Mortz et al., 2002; Fors et al., 2012). Os pesquisadores acham que o contato com o níquel pela boca pode "ensinar" o corpo a tolerar, mas isso ainda está sendo estudado e não é motivo para pôr aparelho em ninguém. Mais sobre a pele dos pequenos em dermatite de contato em bebê.

Que brinco costuma dar menos reação
A DermNet recomenda metais que dão pouca alergia, principalmente enquanto o furo cicatriza: aço inoxidável cirúrgico, nióbio, titânio e ouro. Em outra página, a DermNet sugere supor que toda joia tem níquel, exceto aço inoxidável, ouro de 18 ou 24 quilates, prata de lei e platina pura (DermNet, alergia a joias).
Três cuidados que fazem diferença:
- Banhado e folheado: a camada de ouro ou prata gasta, e o metal de baixo, muitas vezes com níquel, encosta na pele.
- "Antialérgico" na etiqueta: no Brasil não há limite oficial de níquel em bijuterias (a regra do Inmetro trata de cádmio e chumbo), então a palavra é alegação de quem vende (Agência Brasil, Portaria Inmetro 43/2016).
- Nem a regra europeia garante: na Dinamarca, que tem limite de níquel, 14,8% dos 304 brincos analisados soltavam mais níquel do que o permitido (Wennervaldt et al., 2021).
Comparamos os metais um a um em alergia a prata, ouro e aço.
O que fazer quando a orelha reage
A DermNet descreve que o tratamento da alergia passa por afastar a peça e o metal que causa a reação. O cuidado com a pele já inflamada é decidido pelo médico; veja como ele é pensado em dermatite de contato: tratamento. Se o furo é recente, é o médico quem orienta se a peça pode sair sem o furo fechar ou infeccionar.
O que levar à consulta:
- os brincos que deram reação, ou fotos com a descrição de onde foram comprados;
- quanto tempo depois de pôr a peça a orelha reagiu;
- fotos da orelha no pior momento;
- se há reação em outros lugares com metal (umbigo pelo botão da calça, pulso, dedo do anel).
O exame que confirma é o teste de contato, que tem o sulfato de níquel na bateria padrão.
Quando procurar atendimento e quando ligar 192
Procure atendimento no mesmo dia se houver pus, febre, dor forte, vermelhidão que se espalha, ou se a parte de cima da orelha (cartilagem) ficar inchada e dolorida. Ligue 192 (SAMU) se aparecer inchaço no rosto, nos lábios ou na língua com falta de ar, chiado, dificuldade para engolir, tontura ou desmaio.
Fontes
- DermNet (Nova Zelândia). Piercing
- DermNet (Nova Zelândia). Alergia a joias
- DermNet (Nova Zelândia). Dermatite de contato alérgica
- Academia Americana de Pediatria (HealthyChildren). Alergia ao níquel (em espanhol)
- Mortz CG et al. Alergia ao níquel em adolescentes, furo de orelha e aparelho ortodôntico (TOACS). Acta Derm Venereol, 2002 (PubMed)
- Fors R et al. Alergia ao níquel, piercing e aparelho ortodôntico: estudo populacional. Contact Dermatitis, 2012 (PubMed)
- Wennervaldt M et al. Liberação de níquel em brincos à venda na Dinamarca. Contact Dermatitis, 2021 (PubMed)
- Bonamigo RR et al. Nova bateria padrão brasileira de testes de contato. An Bras Dermatol, 2026 (PubMed)
- Agência Brasil. Inmetro estabelece limite para metais pesados em bijuterias e joias (Portaria 43/2016)
Perguntas frequentes
Como saber se tenho alergia a brinco?
Coceira, vermelhidão e descamação no lóbulo, de um a três dias depois de usar a peça, que voltam sempre que ela volta, falam a favor de alergia, quase sempre ao níquel. A confirmação vem do teste de contato.
Alergia a brinco ou infecção: como diferenciar?
Alergia coça mais do que dói e melhora longe da peça. Infecção dói, lateja, incha, pode ter pus e febre e é mais comum no furo recente. Na dúvida, vale mostrar ao médico, principalmente se houver pus ou febre.
Brinco antialérgico existe?
No Brasil, "antialérgico" na etiqueta é alegação da loja, sem limite oficial de níquel. Aço inoxidável cirúrgico, titânio, nióbio, ouro de 18 ou 24 quilates, prata de lei e platina costumam dar menos reação, mas o mais seguro é saber a composição da peça.
Alergia a brinco tem cura?
A alergia ao níquel costuma durar a vida toda, mas a orelha melhora quando o contato acaba. Com peças sem níquel, muita gente volta a usar brinco sem problema.
Furar a orelha do bebê causa alergia?
Furar a orelha está ligado a mais alergia ao níquel em estudos com adolescentes. A Academia Americana de Pediatria sugere adiar o furo ou usar brinco sem níquel até cicatrizar. Converse com o pediatra sobre o melhor para a sua família.
Na comunidade do Alergias Brasil, a troca de dicas sobre brincos, joias e onde perguntar a composição das peças é das mais animadas. Vem conversar com a gente.