Neste texto (5 partes)
O tratamento da esofagite eosinofílica tem cinco frentes principais, segundo as diretrizes: remédio que reduz o ácido do estômago, corticoide "engolido", dieta de eliminação, imunobiológico e dilatação do esôfago. A doença é crônica e não tem cura, mas tem controle: com tratamento de manutenção e acompanhamento, a inflamação pode ficar calma por muito tempo. A escolha é feita com o gastroenterologista, caso a caso.
Aqui não falamos de marca nem de dose. O objetivo é você chegar à consulta entendendo as opções.
O que o tratamento busca
A diretriz da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), de 2025, lista os objetivos: melhorar os sintomas, tirar a inflamação do esôfago (o que se vê na biópsia), melhorar a qualidade de vida e evitar que a doença avance para o estreitamento do esôfago e suas complicações.
Um ponto importante: sentir-se melhor nem sempre quer dizer que a inflamação sumiu. Por isso o médico costuma repetir a endoscopia com biópsia para ver se o tratamento funcionou.
Esofagite eosinofílica: tratamento, opção por opção
A diretriz do American College of Gastroenterology (ACG), de 2025, recomenda remédio que reduz o ácido, corticoide de ação local, dieta de eliminação, um imunobiológico e a dilatação do esôfago. A diretriz da AGA e da força-tarefa de alergistas dos EUA, de 2020, vai na mesma linha. Veja o que cada uma é.

1. Remédio que reduz o ácido do estômago
São os remédios conhecidos como inibidores da bomba de prótons. Além de reduzir o ácido, eles têm efeito na inflamação da esofagite eosinofílica. Segundo a diretriz da FBG, uma metanálise com 33 estudos mostrou que cerca de metade das pessoas (50,5%) ficou sem inflamação na biópsia com esse tratamento, e 60,8% melhoraram dos sintomas. A diretriz brasileira cita esse grupo como primeira opção de remédio, pelo custo e pela facilidade de uso.
2. Corticoide "engolido"
Não é o corticoide em comprimido que age no corpo todo. É um corticoide que a pessoa engole para ele agir direto na parede do esôfago. Segundo a diretriz da FBG:
- ele é eficaz para tirar a inflamação, e nenhuma forma se mostrou melhor que outra;
- na Europa e nos Estados Unidos existem formas feitas para o esôfago; no Brasil, o uso é "fora da bula", adaptando remédios feitos para inalação;
- o efeito colateral mais lembrado é a candidíase na boca (sapinho), em cerca de 5% das pessoas, por isso a higiene da boca importa.
Já o corticoide em comprimido, que age no corpo todo, não é recomendado pela diretriz brasileira para tratar a esofagite eosinofílica, porque tem mais efeitos colaterais e não funciona melhor.
3. Dieta de eliminação
É tirar da alimentação, por um tempo, os alimentos que mais costumam causar a inflamação (como leite e trigo) e depois reintroduzir um a um, com endoscopia, para descobrir o que pesa em cada pessoa. A diretriz da FBG aponta a dieta como uma opção muito eficaz, com tendência de começar tirando um ou dois alimentos. Explicamos tudo em dieta na esofagite eosinofílica.
4. Imunobiológico
São remédios mais novos, injetáveis, que bloqueiam uma parte específica da inflamação alérgica. Segundo a diretriz da FBG, o dupilumabe é o primeiro imunobiológico aprovado pela Anvisa para esofagite eosinofílica, em 2023, depois da aprovação nos Estados Unidos em 2022.
No estudo principal, publicado no New England Journal of Medicine em 2022, com pessoas a partir de 12 anos, a inflamação sumiu da biópsia em 60% de quem recebeu o remédio toda semana, contra 5% de quem recebeu placebo, em 24 semanas; a dificuldade de engolir também melhorou.
A diretriz brasileira lembra que ele pode ser pensado mais cedo em quem tem outras doenças alérgicas do mesmo tipo, como asma ou dermatite atópica. Quem indica é o médico.

5. Dilatação do esôfago
Quando o esôfago já está estreito, o médico pode alargá-lo durante uma endoscopia. Segundo a diretriz da FBG, uma metanálise com 845 pacientes mostrou melhora da dificuldade de engolir em 95% depois do procedimento, com perfuração em 0,38% dos casos.
A dilatação alivia o "aperto", mas não trata a inflamação. Por isso ela costuma vir junto com um dos outros tratamentos.
Esofagite eosinofílica tem cura?
Não. É uma doença crônica. O que existe é controle, chamado de remissão: sem sintomas e sem inflamação na biópsia.
A diretriz da FBG recomenda tratamento de manutenção para todas as pessoas com esofagite eosinofílica. Ela conta que, quando o remédio é interrompido, os sintomas ou a inflamação costumam voltar em 3 a 6 meses. Também não dá para saber, de antemão, quem vai ter estreitamento ou comida entalada, por isso a manutenção é o caminho mais seguro.
Se o tratamento incomoda ou não está funcionando, a conversa é com o médico. A própria diretriz lembra que o tratamento pode perder efeito com o tempo ou ser interrompido pela pessoa sem avisar, e que as consultas regulares servem justamente para ajustar o caminho.
Acompanhamento: endoscopia mesmo sem sintoma
A diretriz da FBG recomenda consultas e endoscopias regulares, mesmo para quem está sem sintomas. O intervalo varia de pessoa para pessoa e é combinado com o médico, conforme a gravidade, o risco de entalar e o tipo de tratamento.
Levar à consulta umas anotações ajuda: se entalou, o que comeu, se precisou beber água para descer, como está o sono e o peso.
Tratamento pelo SUS e pelo plano
Até a última atualização que encontramos, não havia protocolo do Ministério da Saúde para esofagite eosinofílica. A lista dos protocolos publicados fica na página de PCDT da Conitec.
Um parecer técnico do Núcleo de Apoio Técnico do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, de outubro de 2025, registra que o dupilumabe ainda não tinha sido avaliado pela Conitec para essa doença e que, sem protocolo, não há lista oficial de remédios oferecidos pelo SUS para ela.
Isso pode mudar. Antes de pedir um remédio pelo SUS ou pelo plano, converse com o médico sobre o caminho e confira as informações mais recentes na Conitec e na Anvisa.
Fontes
- Domingues G et al. Diretriz da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG): diagnóstico e tratamento da esofagite eosinofílica em adultos e adolescentes. Arq Gastroenterol, 2025
- Dellon ES et al. Diretriz do American College of Gastroenterology (ACG) para esofagite eosinofílica. Am J Gastroenterol, 2025
- Hirano I et al. Diretriz da AGA e da Joint Task Force on Allergy-Immunology Practice Parameters para esofagite eosinofílica. Gastroenterology, 2020
- Dellon ES et al. Dupilumabe em adultos e adolescentes com esofagite eosinofílica. N Engl J Med, 2022
- Amil-Dias J et al. Esofagite eosinofílica em crianças: atualização da ESPGHAN. J Pediatr Gastroenterol Nutr, 2024
- Conitec — Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas
- TJRJ, Núcleo de Apoio Técnico — Parecer técnico nº 4128/2025
Perguntas frequentes
Qual é o tratamento da esofagite eosinofílica?
As diretrizes descrevem remédio que reduz o ácido do estômago, corticoide engolido que age no esôfago, dieta de eliminação, imunobiológico para casos selecionados e dilatação quando há estreitamento. A escolha é feita com o gastroenterologista.
Esofagite eosinofílica tem cura?
Não, é uma doença crônica. Ela tem controle com tratamento de manutenção e acompanhamento. Quando o tratamento para, a inflamação costuma voltar em 3 a 6 meses, segundo a diretriz brasileira.
Existe remédio aprovado no Brasil para esofagite eosinofílica?
Segundo a diretriz da FBG, o imunobiológico dupilumabe foi aprovado pela Anvisa para esofagite eosinofílica em 2023. O corticoide engolido, no Brasil, é usado fora da bula. Quem indica o tratamento é o médico.
O SUS oferece tratamento para esofagite eosinofílica?
Não encontramos protocolo do Ministério da Saúde para a doença. Um parecer técnico de 2025 registra que o dupilumabe não tinha sido avaliado pela Conitec para essa indicação. Converse com o médico sobre o melhor caminho.
Precisa repetir a endoscopia?
Sim, em geral. A diretriz brasileira recomenda consultas e endoscopias regulares, mesmo sem sintomas, porque sentir-se bem nem sempre quer dizer que a inflamação sumiu.