Neste texto (8 partes)
A dieta na esofagite eosinofílica é uma forma de tratamento: tirar, por um tempo, os alimentos que mais costumam causar a inflamação (leite e trigo, principalmente) e depois reintroduzi-los um a um, com endoscopia, para descobrir quais pesam em cada pessoa. Ela é feita com o gastroenterologista e com nutricionista, nunca por conta própria. E o arroz com feijão continua no prato.
Este texto explica os tipos de dieta que as diretrizes descrevem e dá ideias para o dia a dia à mesa.
Por que a comida importa na esofagite eosinofílica
A esofagite eosinofílica é uma inflamação do esôfago de tipo alérgico, ligada principalmente a alimentos, como explica o texto esofagite eosinofílica: o que é, sintomas e diagnóstico. A diretriz da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), de 2025, lembra que os sintomas e a inflamação voltam quando o alimento que causa a reação é reintroduzido, o que mostra o papel da comida.
Diferente da alergia de reação imediata, aqui o alimento não dá vergão nem inchaço em minutos. A inflamação vai se formando no esôfago. Por isso não dá para descobrir o "culpado" só observando o que aconteceu depois de cada refeição.
Os três tipos de dieta
A diretriz da FBG e a diretriz da AGA de 2020 descrevem três caminhos.
Dieta elementar (só fórmula)
A alimentação vira uma fórmula à base de aminoácidos, sem proteína inteira. Segundo a diretriz da FBG, ela tira a inflamação em cerca de 90% das pessoas, mas é difícil de manter: o gosto, o custo e o peso de ficar sem comida de verdade pesam. Fica reservada para situações específicas, decididas pelo médico.
Dieta de eliminação empírica
"Empírica" quer dizer que os alimentos são escolhidos pelo que mais causa a doença nos estudos, e não por exame. A diretriz da FBG lista os seis grupos mais ligados à esofagite eosinofílica:
- leite;
- trigo;
- ovo;
- soja;
- amendoim e castanhas;
- peixes e frutos do mar.
Segundo a mesma diretriz, tirar os seis grupos de uma vez tirou a inflamação em 72,1% das pessoas numa metanálise. Mas é uma dieta pesada. Por isso, os consensos mais recentes preferem começar tirando só um ou dois alimentos, principalmente leite e trigo, e só ampliar se não funcionar. A diretriz pediátrica da ESPGHAN, de 2024, chama isso de dietas de eliminação simplificadas.
Dieta guiada por teste de alergia
Parece o caminho mais lógico, mas não é o que funciona melhor. Segundo a diretriz da FBG, as dietas baseadas em teste de alergia tiraram a inflamação em só 45,5% das pessoas, contra 72,1% da dieta de seis alimentos. Os testes medem o anticorpo IgE, que não é o mecanismo principal da doença.

Como funciona na prática: tirar, conferir e devolver
O ciclo costuma ser assim, sempre com a equipe de saúde:
- Tirar o alimento (ou os alimentos) combinados com o médico.
- Conferir com endoscopia e biópsia depois de algumas semanas, porque o sintoma sozinho não mostra se a inflamação sumiu.
- Devolver um alimento por vez, com nova endoscopia, para ver qual traz a inflamação de volta.
A diretriz da AGA reconhece que essa fase de reintrodução é longa e exige várias biópsias, e que algumas pessoas preferem outro tratamento por isso. As duas escolhas são válidas e devem ser conversadas com o médico.
A diretriz da FBG ainda lembra que a dificuldade de manter a dieta no dia a dia é um dos limites desse tratamento, e que acompanhar como a pessoa está seguindo a dieta faz parte do cuidado.
O que dá para comer: a comida do dia a dia continua
Tirar leite e trigo assusta, mas a base do prato brasileiro não tem nenhum dos dois:
- arroz, feijão, lentilha e grão-de-bico;
- carnes, frango e ovos (se o ovo não estiver na dieta de eliminação);
- mandioca, batata, batata-doce, inhame, cará e milho;
- legumes, verduras e frutas;
- cuscuz de milho, tapioca e farinha de mandioca;
- azeite e óleos vegetais.

O que mais muda é o café da manhã e o lanche, onde moram o pão, o leite, o queijo e o biscoito. Cuscuz, tapioca, frutas, ovos (se liberados) e bolos feitos sem leite e sem trigo ajudam.
Ler o rótulo vira hábito
Leite e trigo aparecem em muitos produtos industrializados, às vezes com outros nomes. No Brasil, eles estão na lista de alergênicos com aviso obrigatório no rótulo ("Alérgicos: contém…"), definida pela RDC 727/2022 da Anvisa. Mesmo assim, vale ler a lista de ingredientes inteira a cada compra, porque a receita do produto muda.
Para o leite, a comunidade de APLV tem um guia completo: nomes do leite no rótulo e lista de alimentos sem leite. As receitas sem leite de lá também servem para quem tirou o leite por causa da esofagite eosinofílica.

Nutricionista não é luxo
Tirar alimentos importantes pode deixar faltar cálcio, proteína, vitaminas e energia, principalmente em crianças, que estão crescendo. A diretriz da FBG diz que a escolha da dieta deve levar em conta fatores médicos, nutricionais e a preferência da pessoa. Na prática, isso significa ter nutricionista junto. Se o leite saiu, veja também cálcio sem leite.
Restaurante, trabalho e festa
- Restaurante: pratos simples (arroz, feijão, carne grelhada, legumes) costumam ser mais fáceis. Pergunte se o molho leva leite, creme de leite, manteiga ou farinha de trigo, e se a carne foi empanada.
- Trabalho: marmita resolve muita coisa e evita depender do que tem por perto.
- Festa: levar um prato que você pode comer garante que ninguém fique só olhando.
- Tempo: comer sem pressa ajuda a não passar aperto. Mas se você precisa sempre cortar tudo miudinho ou beber muita água para a comida descer, conte ao médico: isso é sinal de que a doença está ativa, e não algo para se acostumar.
E se a comida entalar e não descer nem a saliva, procure o pronto-socorro ou ligue 192. Veja os sinais em esofagite eosinofílica é grave?.
Dieta ou remédio?
As duas coisas tratam. A diretriz do ACG, de 2025, recomenda tanto a dieta quanto os remédios como opções, e a escolha leva em conta a vida de cada pessoa. Tem quem prefira não tirar alimentos e tratar com remédio; tem quem prefira a dieta para evitar remédio. Converse com o médico sobre o que faz mais sentido para você. As opções de remédio estão em tratamento da esofagite eosinofílica.
Na comunidade do Alergias Brasil, a gente troca receitas, marmitas e dicas de rótulo com quem vive a mesma coisa.
Fontes
- Domingues G et al. Diretriz da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG): diagnóstico e tratamento da esofagite eosinofílica em adultos e adolescentes. Arq Gastroenterol, 2025
- Hirano I et al. Diretriz da AGA e da Joint Task Force on Allergy-Immunology Practice Parameters para esofagite eosinofílica. Gastroenterology, 2020
- Amil-Dias J et al. Esofagite eosinofílica em crianças: atualização da ESPGHAN. J Pediatr Gastroenterol Nutr, 2024
- Dellon ES et al. Diretriz do American College of Gastroenterology (ACG). Am J Gastroenterol, 2025
- Anvisa — RDC nº 727/2022 (rotulagem de alimentos embalados)
Perguntas frequentes
Quais alimentos evitar na esofagite eosinofílica?
Não existe uma lista igual para todo mundo. Os alimentos mais ligados à doença são leite, trigo, ovo, soja, amendoim e castanhas, e peixes e frutos do mar. Hoje as diretrizes preferem começar tirando só leite e trigo, com médico e nutricionista, e descobrir o que pesa em cada pessoa.
O que pode comer quem tem esofagite eosinofílica?
Depende da dieta combinada com o médico. Em geral, arroz, feijão, carnes, legumes, verduras, frutas, mandioca, batata e milho continuam no prato. O que muda mais é o café da manhã e o lanche.
O exame de alergia mostra o que tirar da dieta?
Não com segurança. Segundo a diretriz brasileira, a dieta guiada por teste de alergia tirou a inflamação em só 45,5% das pessoas, contra 72,1% da dieta que tira os seis grupos de alimentos mais comuns.
Quanto tempo dura a dieta de eliminação?
A primeira fase dura algumas semanas, até a endoscopia de controle. Depois vem a reintrodução, um alimento por vez, com novas endoscopias. O tempo total varia e é combinado com o médico.
Leite sem lactose pode na esofagite eosinofílica?
Se o leite foi tirado da dieta, não. A inflamação é causada pela proteína do leite, e o leite sem lactose continua tendo essa proteína. Explicamos a diferença no texto sem lactose não é sem leite.