Neste texto (9 partes)
A esofagite eosinofílica em crianças costuma aparecer de um jeito diferente do adulto: em vez de reclamar que a comida entala, a criança recusa comida, vomita, demora muito para comer ou tem dificuldade de avançar na introdução de alimentos. O diagnóstico é feito com endoscopia e biópsia, e o tratamento é escolhido com o gastropediatra, muitas vezes junto com alergista e nutricionista.
Se você chegou aqui porque desconfia que seu filho tem algo além de "frescura para comer", este texto é para você.
O que é esofagite eosinofílica, em poucas palavras
É uma inflamação crônica do esôfago, de tipo alérgico, em que células de defesa chamadas eosinófilos se acumulam na parede do tubo que leva a comida até o estômago. Ela é ligada principalmente a alimentos, mas não depende do anticorpo IgE, como explica a diretriz da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), de 2025. O texto completo está em esofagite eosinofílica: o que é, sintomas e diagnóstico.
Uma metanálise de 2019, com estudos de base populacional de outros países, estimou 34 casos a cada 100 mil crianças. No Brasil, não encontramos estudo que mostre quantas crianças têm.
Esofagite eosinofílica em crianças: sintomas por idade
O consenso internacional de 2018 (AGREE) lista vários sinais de mau funcionamento do esôfago que podem aparecer em crianças. A diretriz da FBG lembra que a dificuldade de engolir e a comida entalada ficam mais comuns conforme a idade aumenta, e que nas crianças pequenas o que mais chama atenção é o jeito de comer.
Bebês e crianças pequenas
- Recusa de comida ou de mamadeira.
- Dificuldade de avançar na introdução alimentar (aceita papinha, mas trava nos pedaços).
- Vômitos e regurgitação que não melhoram como o esperado.
- Ganho de peso e crescimento abaixo do esperado.
Crianças em idade escolar
- Dor de barriga ou azia.
- Vômitos.
- Comer muito devagar, deixar comida no prato, preferir coisas moles.
Adolescentes
- Dificuldade de engolir sólidos, como carne e pão.
- Comida entalada.
- Dor no peito ou dor ao engolir.
Esses sinais também aparecem em outras doenças, como o refluxo. Por isso, o caminho é anotar e levar ao pediatra, sem tirar conclusão sozinho.

Dificuldade para comer não é birra
Uma revisão sistemática da EAACI, de 2025, reuniu dez estudos sobre dificuldades alimentares em crianças com esofagite eosinofílica. Nos estudos, a proporção de crianças com dificuldade para comer variou de 13% a 75,3%, uma faixa larga porque cada estudo mediu de um jeito. A revisão também viu que muitas dessas crianças tinham, junto, sensibilização ou alergia alimentar do tipo IgE.
Na prática, o corpo aprende a se proteger. Gastroenterologistas que estudam a doença, como Ronak Patel e Ikuo Hirano, descrevem "estratégias de adaptação" que as pessoas criam sem perceber:
- beber muito líquido junto com a comida;
- cortar tudo em pedacinhos ou amassar;
- demorar muito nas refeições;
- evitar comidas mais duras, como carne;
- mastigar demais;
- recusar comprimidos.
Esses jeitinhos fazem a comida descer, mas também escondem a doença. Vale contar ao médico como é a hora da refeição, e não só se a criança "come bem".

Quem tem mais chance
Segundo a diretriz da FBG, cerca de 75% das pessoas com esofagite eosinofílica têm outra doença alérgica, como alergia alimentar, rinite, asma ou dermatite atópica. O consenso AGREE também cita a história de esofagite eosinofílica ou de dificuldade de engolir na família.
Muitas famílias que chegam à esofagite eosinofílica já passaram pela alergia ao leite. Se esse é o seu caso, a comunidade de APLV tem textos sobre rótulo e receitas sem leite que podem ajudar.
Como é o diagnóstico na criança
O caminho é o mesmo do adulto: endoscopia com biópsia de várias partes do esôfago, mesmo que ele pareça normal, e a exclusão de outras causas, segundo o consenso AGREE. Em criança, a endoscopia costuma ser feita com sedação, num ambiente preparado. Converse com o gastropediatra sobre como vai ser o exame e como preparar a criança.

Os testes de alergia na pele ou no sangue não confirmam a esofagite eosinofílica e não mostram bem quais alimentos causam a inflamação. A diretriz pediátrica da ESPGHAN, de 2024, recomenda não usá-los para escolher a dieta. Eles servem para ver se a criança tem, junto, uma alergia de reação imediata.
Como é o tratamento em crianças
A diretriz da ESPGHAN, feita por gastroenterologistas pediátricos europeus, trouxe algumas novidades:
- revisão das opções iniciais de remédio;
- o conceito de dietas de eliminação simplificadas, que tiram menos alimentos de uma vez;
- imunobiológicos como opção para casos que não respondem ao tratamento comum;
- atenção à qualidade de vida e a uma passagem planejada para o médico de adultos na adolescência.
A diretriz do American College of Gastroenterology (ACG), de 2025, cita ainda a terapia de alimentação (com fonoaudiólogo ou terapeuta especializado) como apoio para crianças que desenvolveram aversão à comida ou dificuldade de comer.
Quem escolhe o caminho é a equipe que acompanha a criança. Explicamos as opções em tratamento da esofagite eosinofílica e a parte da comida em dieta na esofagite eosinofílica.
Dieta em criança precisa de nutricionista
Criança está crescendo. Tirar leite, trigo ou outros alimentos sem orientação pode faltar cálcio, proteína e energia. Se a dieta de eliminação for o caminho, converse com o médico sobre o acompanhamento com nutricionista. Para quem precisa tirar o leite, temos um texto sobre cálcio sem leite.
Escola, festa e lancheira
Algumas coisas que costumam ajudar, sempre combinadas com a equipe de saúde:
- Avisar a escola por escrito sobre os alimentos que a criança não pode comer e sobre os sinais de comida entalada.
- Mandar lanche de casa quando a dieta é de eliminação, com algo gostoso para a criança não se sentir de fora.
- Respeitar o tempo dela na refeição. Pressa e bronca aumentam o medo de engolir.
- Água por perto e pedaços de tamanho que ela consiga.
Quando é emergência
Se a comida entalou e a criança não consegue engolir nem a saliva, baba, tem dor no peito ou falta de ar: leve ao pronto-socorro na hora ou ligue 192 (SAMU). Engasgo com tosse sem som, lábios roxos ou sem conseguir respirar também é emergência: ligue 192. Explicamos os sinais em esofagite eosinofílica é grave?.
Não é culpa de ninguém
Não foi o jeito de alimentar, nem uma "mania" da criança. A esofagite eosinofílica é uma doença, tem diagnóstico e tem tratamento. Na comunidade do Alergias Brasil, famílias trocam experiência sobre lancheira, escola e as dúvidas para levar à consulta.
Fontes
- Amil-Dias J et al. Diagnóstico e tratamento da esofagite eosinofílica em crianças: atualização da ESPGHAN. J Pediatr Gastroenterol Nutr, 2024
- Dellon ES et al. Critérios diagnósticos do consenso internacional (conferência AGREE). Gastroenterology, 2018
- Domingues G et al. Diretriz da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) para esofagite eosinofílica. Arq Gastroenterol, 2025
- Dellon ES et al. Diretriz do American College of Gastroenterology (ACG). Am J Gastroenterol, 2025
- Ruano-Zaragoza M et al. Revisão sistemática de dificuldades alimentares em crianças com esofagite eosinofílica (EAACI). Pediatr Allergy Immunol, 2025
- Navarro P et al. Incidência e prevalência da esofagite eosinofílica em crianças e adultos. Aliment Pharmacol Ther, 2019
- Patel R, Hirano I. Esofagite eosinofílica: perguntas frequentes para o gastroenterologista (MDedge)
Perguntas frequentes
Quais são os sintomas de esofagite eosinofílica em bebês?
Em bebês e crianças pequenas, os sinais mais comuns são recusa de comida, vômitos, dificuldade de avançar na introdução alimentar e ganho de peso abaixo do esperado. Esses sinais também aparecem em outras doenças, então o caminho é levar ao pediatra.
Esofagite eosinofílica infantil passa com a idade?
É uma doença crônica, e as diretrizes recomendam acompanhamento contínuo e uma passagem planejada para o médico de adultos. Converse com o gastropediatra sobre o que esperar no caso do seu filho.
Criança com esofagite eosinofílica precisa fazer dieta?
Nem sempre. A dieta de eliminação é uma das opções, ao lado de remédios. A escolha é feita com a equipe de saúde e, se for dieta, com acompanhamento de nutricionista para não faltar nada no crescimento.
O exame de alergia mostra o que a criança não pode comer?
Não com segurança. As diretrizes mostram que os testes de alergia na pele ou no sangue não acertam bem os alimentos que causam a esofagite eosinofílica, e a ESPGHAN recomenda não usá-los para escolher a dieta.
Qual médico trata esofagite eosinofílica em criança?
Em geral, o gastroenterologista pediátrico, muitas vezes junto com o alergista e o nutricionista. O pediatra costuma ser a porta de entrada.