Neste texto (9 partes)
- O que é esofagite eosinofílica, explicado de um jeito simples
- Esofagite eosinofílica é comum?
- Esofagite eosinofílica: sintomas
- Quem tem mais chance de ter
- Como é feito o diagnóstico
- Esofagite eosinofílica, refluxo e alergia alimentar: qual a diferença
- Como é o tratamento
- Quando é emergência
- Você não está exagerando
Esofagite eosinofílica é uma inflamação crônica do esôfago, o tubo que leva a comida da boca até o estômago, causada por uma reação do sistema imune, muitas vezes a alimentos. O sinal mais comum em adolescentes e adultos é a dificuldade de engolir, com a sensação de comida entalada. O diagnóstico é feito com endoscopia e biópsia, e o tratamento tem controle, com acompanhamento médico.
Este é o texto de entrada da comunidade de esofagite eosinofílica do Alergias Brasil. Aqui está o básico, com fonte; os outros textos aprofundam cada parte.
O que é esofagite eosinofílica, explicado de um jeito simples
Os eosinófilos são células de defesa que aparecem em reações alérgicas. Num esôfago saudável, eles quase não existem. Na esofagite eosinofílica, eles se acumulam na parede do esôfago e mantêm uma inflamação que não passa sozinha.
Segundo a diretriz da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), de 2025, a doença é uma inflamação do tipo alérgico, ligada a antígenos (geralmente alimentos), e não depende do anticorpo IgE. Isso a diferencia da alergia alimentar que dá reação em minutos.
Com o tempo, se a inflamação não é controlada, a parede do esôfago pode engrossar e ficar mais estreita. É por isso que a comida passa a "agarrar" no meio do caminho.
Esofagite eosinofílica é comum?
Ela vem sendo cada vez mais reconhecida. Uma revisão com metanálise de 2019, com estudos de base populacional (a maioria da América do Norte e da Europa), estimou:
- 34,4 casos a cada 100 mil habitantes, no total;
- 42,2 por 100 mil entre adultos e 34 por 100 mil entre crianças;
- um aumento constante dos casos ao longo dos anos.
No Brasil, não encontramos estudo que mostre quantas pessoas têm. A própria diretriz da FBG foi a primeira brasileira sobre o tema.
A mesma diretriz descreve a esofagite eosinofílica como a segunda doença crônica do esôfago mais frequente, atrás só do refluxo, e a principal causa de dificuldade de engolir e de comida entalada em adolescentes e adultos.
Esofagite eosinofílica: sintomas
Os sintomas mudam com a idade.
Em adolescentes e adultos
Segundo a diretriz da FBG:
- Dificuldade de engolir (disfagia), principalmente de comida sólida, como carne e pão. Aparece em cerca de 70% dos casos.
- Comida entalada (impactação), em cerca de 30%. Às vezes é assim que a doença é descoberta.
- Sintomas parecidos com refluxo: azia, comida voltando e dor no peito que não é do coração.
A diretriz também conta que os sintomas podem existir por muito tempo antes do diagnóstico, às vezes até 10 anos. Muita gente se acostuma: come devagar, corta tudo em pedaços pequenos, bebe muita água para a comida descer. Esses "jeitinhos" escondem a doença e atrasam a consulta.
Em crianças
O consenso internacional de 2018 (AGREE) lista sinais que, nas crianças, podem ser diferentes dos de adultos:
- recusa de comida ou dificuldade de avançar na introdução de alimentos;
- vômitos, regurgitação e azia;
- dor de barriga ou dor no peito;
- dor ao engolir;
- ganho de peso e crescimento abaixo do esperado.
Explicamos melhor em esofagite eosinofílica em crianças.

Quem tem mais chance de ter
Segundo a diretriz da FBG, cerca de 75% das pessoas com esofagite eosinofílica têm pelo menos outra doença alérgica, como alergia alimentar, rinite, asma ou dermatite atópica. O consenso AGREE cita também a história de esofagite eosinofílica ou de dificuldade de engolir na família como motivo para pensar na doença.
Ter alergia não quer dizer que a pessoa vai ter esofagite eosinofílica. São só pistas que o médico junta à história.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico precisa de endoscopia com biópsia. Segundo o consenso AGREE e a diretriz da FBG, ele junta três coisas:
- Sintomas de mau funcionamento do esôfago (como dificuldade de engolir).
- Biópsia com 15 ou mais eosinófilos por campo de grande aumento no microscópio.
- Exclusão de outras doenças que também levam eosinófilos ao esôfago, sendo o refluxo a mais comum.

A diretriz da FBG recomenda colher pelo menos seis fragmentos, de partes diferentes do esôfago, mesmo que ele pareça normal no exame. A inflamação é salpicada, e um esôfago com aparência normal não descarta a doença.
E o teste de alergia?
Para a esofagite eosinofílica, os testes de alergia na pele ou no sangue ajudam pouco. A diretriz da FBG explica que eles medem o anticorpo IgE, que não é o mecanismo principal da doença, e que não acertam bem quais alimentos causam a inflamação. Eles servem para ver se a pessoa tem, junto, outra alergia, como a de reação imediata.
Sintoma forte, biópsia leve (e o contrário)
A diretriz também mostra que a intensidade dos sintomas nem sempre combina com a quantidade de inflamação na biópsia. Por isso o médico costuma repetir a endoscopia para ver se o tratamento funcionou, e não só perguntar como a pessoa está.
Esofagite eosinofílica, refluxo e alergia alimentar: qual a diferença
São coisas diferentes, que às vezes andam juntas.
- Refluxo: o ácido do estômago sobe para o esôfago. O sintoma clássico é azia e comida voltando. É também a causa mais comum de eosinófilos no esôfago que não é esofagite eosinofílica, por isso o médico precisa separar um do outro.
- Esofagite eosinofílica: inflamação crônica, de tipo alérgico, sem depender do IgE. O mais marcante é a dificuldade de engolir e a comida entalada. Pode ter azia também, o que confunde.
- Alergia alimentar de reação imediata (IgE): vergões, inchaço, vômitos ou falta de ar de minutos até cerca de duas horas depois de comer, como descreve o Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar (SBP e ASBAI). Essa pode causar anafilaxia.
Um detalhe que confunde: o remédio que reduz o ácido do estômago melhora parte das pessoas com esofagite eosinofílica. O consenso AGREE passou a tratá-lo como uma opção de tratamento, e não como um teste para separar refluxo de esofagite.

Como é o tratamento
As diretrizes descrevem algumas frentes, escolhidas junto com o médico, conforme a idade, a gravidade e a preferência de cada pessoa:
- remédio que reduz o ácido do estômago;
- corticoide "engolido", que age direto no esôfago;
- dieta de eliminação, tirando os alimentos que mais costumam causar a inflamação;
- imunobiológico, um remédio mais novo, para casos selecionados;
- dilatação do esôfago, quando há estreitamento.
A diretriz da FBG recomenda tratamento de manutenção e acompanhamento regular, porque a inflamação costuma voltar quando o tratamento para. Explicamos cada opção em esofagite eosinofílica: tratamento e se tem cura e a parte da comida em dieta na esofagite eosinofílica.

Quando é emergência
Comida que entalou e não desce nem a saliva, baba sem conseguir engolir, dor forte no peito ou falta de ar: procure o pronto-socorro na hora ou ligue 192 (SAMU). Contamos o que fazer e o que esperar em esofagite eosinofílica é grave?.
Você não está exagerando
Quem tem esofagite eosinofílica muitas vezes ouve que "é só mastigar direito" ou "é ansiedade". Engolir com dificuldade todos os dias cansa e pesa nas refeições, no trabalho e na escola. Anotar o que acontece (o que comeu, se entalou, se precisou beber água para descer) e levar à consulta ajuda o médico a enxergar o quadro inteiro.
Na comunidade do Alergias Brasil, a gente troca experiência sobre o dia a dia com a doença e as dúvidas para levar ao médico.
Fontes
- Domingues G et al. Diretriz da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG): diagnóstico e tratamento da esofagite eosinofílica em adultos e adolescentes. Arq Gastroenterol, 2025
- Dellon ES et al. Critérios diagnósticos do consenso internacional (conferência AGREE). Gastroenterology, 2018
- Dellon ES et al. Diretriz do American College of Gastroenterology (ACG) para esofagite eosinofílica. Am J Gastroenterol, 2025
- Navarro P et al. Revisão sistemática com metanálise: incidência e prevalência crescentes da esofagite eosinofílica. Aliment Pharmacol Ther, 2019
- Lucendo AJ et al. Diretrizes europeias de esofagite eosinofílica (UEG, EAACI, ESPGHAN e EUREOS). United European Gastroenterol J, 2017
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2018 — Parte 1 (SBP e ASBAI)
Perguntas frequentes
O que é esofagite eosinofílica?
É uma inflamação crônica do esôfago, de tipo alérgico, em que células de defesa chamadas eosinófilos se acumulam na parede do órgão. O sintoma mais comum em adolescentes e adultos é a dificuldade de engolir, com comida entalada.
Quais são os sintomas de esofagite eosinofílica?
Em adultos e adolescentes, dificuldade de engolir sólidos, comida entalada, azia e dor no peito. Em crianças, recusa de comida, vômitos, dor de barriga e ganho de peso abaixo do esperado.
Como é feito o diagnóstico de esofagite eosinofílica?
Por endoscopia com biópsia de várias partes do esôfago, mesmo que ele pareça normal. A biópsia mostra 15 ou mais eosinófilos por campo, e o médico descarta outras causas, como o refluxo.
Esofagite eosinofílica é alergia?
É uma doença de tipo alérgico, ligada a alimentos e a outros alérgenos, mas que não depende do anticorpo IgE. Por isso ela não causa a reação imediata da alergia alimentar comum, e os testes de alergia ajudam pouco no diagnóstico.
Esofagite eosinofílica tem cura?
É uma doença crônica. As diretrizes falam em controle com tratamento de manutenção e acompanhamento, porque a inflamação costuma voltar quando o tratamento para. Explicamos em esofagite eosinofílica: tratamento e se tem cura.