Neste texto (8 partes)
Alergia a gergelim é uma reação do sistema imune às proteínas da semente de gergelim. Ela pode causar desde vergões e coceira até anafilaxia, pode começar na infância ou na vida adulta e, na maior parte das pessoas, dura por muitos anos. O diagnóstico é com o alergista, e o cuidado principal é evitar o gergelim, o que no Brasil exige atenção extra porque ele não aparece no aviso de alergênicos do rótulo.
Vamos ao que as fontes dizem, sem susto e sem minimizar.
O que é alergia a gergelim
Na alergia a gergelim, o corpo produz anticorpos (IgE) contra proteínas da semente. Quando a pessoa come gergelim de novo, esses anticorpos disparam a reação, às vezes com uma quantidade pequena.
As proteínas mais estudadas ficam guardadas na semente como reserva (uma delas tem o nome técnico de Ses i 1). Outras ficam presas à parte de gordura, as chamadas oleosinas. Isso ajuda a entender por que o diagnóstico às vezes confunde, como explicamos mais abaixo.
Não confunda com uma busca que aparece muito: "gergelim serve para alergia". Não há tratamento de alergia com gergelim; é uma confusão com textos sobre benefícios do alimento.

Alergia a gergelim é comum?
No Brasil, não há estudo que mostre quantas pessoas têm. A ASBAI lembra que o país não tem estatísticas oficiais sobre alergia alimentar.
Lá fora, segundo uma revisão de 2017:
- Cerca de 0,1% a 0,2% das pessoas nos Estados Unidos e no Canadá relatam alergia a gergelim.
- Entre crianças, os estudos citados vão de 0,1% no Canadá a até 0,8% na Austrália.
- Em Israel, o gergelim está entre os alimentos que mais causam anafilaxia em crianças; no Canadá, respondeu por 2,8% das anafilaxias por alimento em crianças.
Um estudo de 2019 com quase 79 mil pessoas nos Estados Unidos encontrou 0,49% relatando alergia a gergelim e 0,23% com sintomas típicos de alergia mediada por IgE. Entre essas, cerca de 1 em cada 4 a 1 em cada 3 já tinha tido uma reação grave, e 8 em cada 10 tinham também outra alergia alimentar.
Num acompanhamento de crianças do Reino Unido publicado em 2026, a alergia a gergelim passou de 0,5% (entre 1 e 3 anos) para 1,5% (entre 7 e 12 anos), e a maioria dos casos apareceu depois dos 3 anos.
Ou seja: não é das alergias mais comuns, mas pode ser grave e pode surgir mais tarde.
Alergia a gergelim: sintomas
Segundo o Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar, da SBP e da ASBAI, as reações de alergia alimentar desse tipo costumam aparecer em minutos até cerca de duas horas depois de comer, com sinais como:
- Vergões vermelhos e coceira na pele (urticária).
- Inchaço de lábios, olhos ou rosto.
- Vômito, dor de barriga ou diarreia.
- Coriza, tosse ou chiado.
A orientação de anafilaxia da Organização Mundial de Alergia (WAO, 2020) lembra que a gravidade de uma reação não prevê a da próxima. Por isso, uma reação "fraquinha" não quer dizer que a próxima também vai ser.
Quando é emergência
Falta de ar, chiado forte, voz rouca ou garganta fechando, inchaço da língua, tontura, desmaio, pele pálida ou vômitos repetidos depois de comer: ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro na hora. Veja anafilaxia.
Como é feito o diagnóstico
O alergista junta a história (o que comeu, quanto, quanto tempo depois veio a reação) com exames:
- Teste cutâneo (o teste na pele).
- Exame de sangue para IgE contra o gergelim.
- Teste de provocação oral, feito em ambiente preparado. Segundo a revisão de 2017, o teste de provocação duplo-cego continua sendo o padrão-ouro para o gergelim, porque o exame de sangue sozinho acerta pouco.

Por que o exame pode dar negativo em quem reage
Esse é um ponto pouco conhecido. Num estudo holandês de 2019, cerca de um terço dos adultos com alergia a gergelim confirmada não tinha IgE detectável nos exames comuns.
Uma explicação proposta são as oleosinas: os extratos usados nos testes passam por um processo que tira a gordura, e essas proteínas podem ficar de fora. A revisão de 2017 cita uma pequena série de casos na Espanha, com 10 pessoas com história clara e teste de pele comum negativo: 9 tiveram teste positivo quando o teste foi feito com a própria semente, e todas tinham anticorpos contra oleosinas. Já o estudo holandês não encontrou anticorpos contra oleosinas nesses adultos e concluiu que elas têm papel pequeno. Ou seja: o motivo ainda está em estudo, mas o recado é o mesmo.
Se você reagiu ao gergelim e o exame veio negativo, leve a história completa ao alergista. Ele decide se faz sentido outro tipo de teste.
Também vale o contrário: exame positivo sem sintomas pode ser só sensibilização, e não alergia, como explica o Consenso Brasileiro.
A alergia a gergelim passa?
Em boa parte das pessoas, não passa. A revisão de 2017 reúne estudos com crianças em que cerca de 20% a 30% desenvolveram tolerância depois de anos de acompanhamento (de 4 a 7 anos, em média). A Anaphylaxis UK resume como cerca de 2 em cada 10 crianças, e lembra que a alergia também pode começar pela primeira vez na vida adulta. O estudo do Reino Unido de 2026 sugere que o nível de IgE contra o gergelim e contra a Ses i 1 ajuda a prever quem continua alérgico. Por isso, o alergista acompanha e decide se e quando vale reavaliar.
O que as diretrizes descrevem como cuidado
Segundo a diretriz europeia de alergia alimentar (EAACI, 2025), o cuidado de quem tem alergia alimentar mediada por IgE inclui:
- Evitar o alimento, com orientação de nutricionista.
- Ter um plano de ação por escrito, combinado com o médico.
- Aprender a reconhecer os sinais de reação.
- Adrenalina autoinjetável para quem tem risco de anafilaxia, quando o médico indica.
No Brasil, a caneta de adrenalina não tem registro na Anvisa, o que a ASBAI reforçou em abril de 2026. A orientação da ASBAI é conversar com o alergista sobre o plano de emergência e, quando ele indicar, sobre os caminhos legais de importação.
A revisão de 2017 lembra que exposições acidentais são comuns: num estudo canadense, cerca de 16% das crianças com alergia a gergelim tiveram uma exposição acidental por ano. Por isso o rótulo é tão importante.
Onde o gergelim se esconde
Pão de hambúrguer, pão sírio, esfiha, tahine, homus, sushi, temaki, pratos com óleo de gergelim, granola, barrinhas e biscoitos "multigrãos" estão entre os produtos que merecem atenção. O óleo de gergelim também conta: diferente de alguns óleos muito refinados, ele costuma ser não refinado e manter as proteínas que causam a reação, como explica a Anaphylaxis UK. No Brasil, o gergelim não está na lista de alergênicos obrigatórios da RDC 26/2015 da Anvisa, então ele pode estar só na lista de ingredientes, sem aviso. Explicamos tudo em gergelim no rótulo.

E quem tem alergia a amendoim ou castanha?
Algumas proteínas do gergelim e do amendoim são parecidas. A revisão de 2017 mostra que pessoas com alergia a amendoim podem ter exame de IgE para gergelim alto e, mesmo assim, comer gergelim sem reação. Ao mesmo tempo, quem tem alergia a amendoim e a castanhas ao mesmo tempo parece ter mais chance de também reagir ao gergelim, segundo a mesma revisão. Ou seja: ter uma alergia não quer dizer ter a outra, e um exame isolado pode confundir. Quem avalia cada caso é o alergista, antes de tirar ou incluir qualquer alimento.
Fontes
- Adatia A et al. Sesame allergy: current perspectives. J Asthma Allergy, 2017
- Warren CM et al. Prevalence and Severity of Sesame Allergy in the United States. JAMA Netw Open, 2019
- Foong RX et al. The Evolution of Sesame Seed Allergy Over Time. Allergy, 2026
- Ehlers AM et al. Sesame oleosins are minor allergens. Clin Transl Allergy, 2019
- Cardona V et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020
- Anaphylaxis UK — Sesame allergy (2026)
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2018 — Parte 1 (SBP e ASBAI)
- Santos AF et al. EAACI guidelines on the management of IgE-mediated food allergy. Allergy, 2025
- ASBAI — Alergias a amendoim e castanhas aumentam entre a população pediátrica (2021)
- Poder360 — Brasil tem alta de anafilaxia e segue sem caneta de adrenalina (2025)
- IstoÉ Dinheiro — "Não existe autoinjetor de adrenalina no Brasil", alerta da ASBAI (abril de 2026)
- Anvisa — RDC nº 26/2015
Perguntas frequentes
Alergia a gergelim pode matar?
A alergia a gergelim pode causar anafilaxia, que é uma reação grave. Por isso os sinais de alerta importam: falta de ar, garganta fechando, inchaço da língua ou desmaio pedem ligação para o 192 na hora.
Quais são os sintomas de alergia a gergelim?
Vergões e coceira na pele, inchaço de lábios ou olhos, vômito, dor de barriga, coriza, tosse e chiado, em geral de minutos até cerca de duas horas depois de comer.
Como saber se tenho alergia a gergelim?
Com o alergista, que junta a sua história a exames de pele, de sangue e, se necessário, teste de provocação. Um exame negativo não descarta a alergia quando a história é forte.
Alergia a gergelim passa?
Em boa parte das pessoas, não. Nos estudos com crianças reunidos por uma revisão de 2017, cerca de 20% a 30% desenvolveram tolerância depois de anos. Ela também pode começar na vida adulta. O alergista decide quando reavaliar.
Quem tem alergia a amendoim pode comer gergelim?
São alergias diferentes, avaliadas uma a uma. Há pessoas com alergia a amendoim e exame positivo para gergelim que comem gergelim sem reação. Converse com o alergista.