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Caneta de adrenalina no Brasil: por que não tem e o que fazer

A caneta de adrenalina não tem registro na Anvisa. Entenda por quê, o que mudou em 2026, o projeto de lei no SUS e o que conversar com o alergista.

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Ambulância do SAMU 192 estacionada na base, com palmeira ao fundo, em Campo Maior, no Piauí
Foto: Moacir Ximenes, domínio público, via Wikimedia Commons
Neste texto (8 partes)
  1. O que é a caneta de adrenalina
  2. Por que a caneta de adrenalina não tem no Brasil
  3. O que aconteceu em 2026
  4. E a importação?
  5. Quem teria indicação de caneta
  6. Os números mostram o tamanho do problema
  7. O projeto de lei para o SUS
  8. Sem caneta: o que dá para fazer

A caneta de adrenalina (o autoinjetor de adrenalina) não é vendida no Brasil: nenhum modelo tem registro na Anvisa, segundo a ASBAI, a associação brasileira de alergistas. Em outros países, quem tem risco de anafilaxia, inclusive por picada de inseto, costuma andar com ela. Aqui, o plano de emergência depende de reconhecer os sinais cedo e ligar 192 (SAMU) na hora, além da conversa com o alergista.

Esse é um dos temas que mais angustiam quem tem alergia grave. Vamos explicar o que é a caneta, por que ela não existe nas farmácias brasileiras e o que as famílias podem conversar com o médico.

O que é a caneta de adrenalina

É um aparelho do tamanho de uma caneta grossa, com uma dose pronta de adrenalina e uma agulha escondida. Foi pensado para ser usado por pessoas leigas, na hora de uma anafilaxia, enquanto o socorro chega.

A adrenalina é o remédio da anafilaxia. Segundo a ASBAI, ela é o único medicamento capaz de tratar todos os sintomas da anafilaxia. O Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde diz que, nas reações graves a picadas, a demora na adrenalina aumenta o risco de morte, e que ela é aplicada no músculo da coxa.

Antialérgico em comprimido não substitui a adrenalina na anafilaxia.

Por que a caneta de adrenalina não tem no Brasil

O motivo é simples e frustrante: nenhum autoinjetor tem registro na Anvisa. Sem registro, o produto não pode ser vendido no país. Segundo a ASBAI, a Anvisa aguarda um pedido de registro para avaliar.

Não é só um problema daqui. Segundo a mesma publicação da ASBAI, só 32% dos 195 países do mundo fabricam autoinjetores, a maioria de alta renda.

O que aconteceu em 2026

Em abril de 2026, a Anvisa mandou apreender um autoinjetor de adrenalina importado e anunciado no Brasil sem registro, segundo reportagem do Viva/Estadão. A agência lembrou que produto sem registro não tem garantia de composição, origem, eficácia e segurança.

Na mesma reportagem, a ASBAI reforçou que não existe autoinjetor aprovado no Brasil e alertou para os riscos de produtos sem aprovação: falsificação, dose errada, falha do aparelho e contaminação, que podem fazer a caneta falhar justamente na emergência.

E a importação?

Algumas famílias trazem a caneta de fora. É um caminho caro: a caneta importada custa de R$ 3 mil a R$ 4 mil, segundo o Conselho Federal de Farmácia. E tem regras próprias.

A orientação da ASBAI, citada pelo Viva/Estadão, é conversar com o médico sobre os trâmites legais antes de tentar importar qualquer medicamento, e não comprar de vendedor sem procedência. Aqui não indicamos marca, loja nem jeito de importar.

Quem teria indicação de caneta

Segundo a ASBAI, não há estudos que digam exatamente quando prescrever, e as indicações vêm da opinião de especialistas americanos. Entre as ligadas a insetos, estão:

  • exposição frequente a venenos de insetos no trabalho;
  • alergia a veneno de abelha com fatores de risco, como triptase alta no sangue, idade avançada ou doença do coração;
  • anafilaxia por veneno com imunoterapia ainda incompleta;
  • reação no corpo todo durante a imunoterapia com veneno.

Quem decide se a caneta faz sentido no seu caso é o alergista.

Os números mostram o tamanho do problema

O Registro de Anafilaxia da ASBAI, com 237 pacientes, mostrou que a maioria das anafilaxias aconteceu em casa, que só 25 pacientes tinham autoinjetor, que apenas 61,1% receberam adrenalina e que menos de 10% usaram o autoinjetor, segundo a ASBAI.

Ou seja: mesmo quando a adrenalina existe, muita gente não a recebe. Reconhecer os sinais cedo e pedir socorro rápido salva tempo.

O projeto de lei para o SUS

O PL 85/2024 propõe que o SUS forneça a caneta de adrenalina de graça, com laudo médico. Segundo a ASBAI, houve audiência pública na Comissão de Saúde da Câmara em 4 de junho de 2024 e, dois dias depois, o relator deu parecer favorável. Em 2025, a Comissão de Saúde aprovou o texto do relator, que também prevê canetas em locais de grande circulação, como aeroportos, rodoviárias, shoppings e escolas, segundo o Conselho Federal de Farmácia. O projeto ainda passa pelas comissões de Finanças e de Constituição e Justiça e, depois, pelo Senado. Vale acompanhar a tramitação no site da Câmara dos Deputados.

Enquanto isso, a Justiça tem decidido casos pontuais: em outubro de 2025, uma decisão mandou o SUS de Ribeirão Preto (SP) e de 23 cidades vizinhas fornecer o autoinjetor a quem tem receita, segundo o Poder360. Segundo a mesma reportagem, a Anvisa diz que nunca recebeu um pedido de registro do aparelho.

Há também pesquisa nacional: pesquisadores brasileiros, com coordenação na Fiocruz, apresentaram um protótipo de caneta com custo estimado de R$ 400, segundo o Conselho Federal de Farmácia. Ainda é protótipo, sem aprovação para venda.

Sem caneta: o que dá para fazer

Enquanto a caneta não chega, dá para se preparar:

  • Plano de emergência por escrito, feito com o alergista: quais sinais observar e o que fazer. Uma cópia fica na escola, no trabalho, no carro e com quem cuida.
  • Saber os sinais de anafilaxia de cor: placas pelo corpo, inchaço nos lábios ou na língua, rouquidão, falta de ar, chiado, tontura, desmaio, vômitos. Veja anafilaxia.
  • Ligar 192 logo nos primeiros sinais, sem esperar piorar, e dizer que é suspeita de anafilaxia.
  • Saber onde fica o pronto-socorro mais próximo de casa, da escola, do trabalho e dos lugares de passeio, como trilhas e sítios.
  • Identificação de alergia, como um cartão na carteira ou um aviso no celular.
  • Avaliar a imunoterapia com veneno com o alergista, o tratamento que reduz o risco de novas reações. Veja alergia a picada de inseto.
Infográfico caneta de adrenalina no Brasil: nenhum autoinjetor tem registro na Anvisa; só 32% dos 195 países fabricam autoinjetores; no registro da ASBAI, 61,1% dos pacientes com anafilaxia receberam adrenalina; o PL 85/2024 propõe a caneta pelo SUS; cinco cuidados enquanto a caneta não chega (plano de emergência, sinais de anafilaxia, ligar 192 logo, pronto-socorro mais perto, identificação de alergia); antialérgico não substitui a adrenalina
Infográfico: Insetos · Alergias Brasil
Estrada de terra no meio da mata verde, em Minas Gerais
Foto: Jhonata Rodrigues, via Pexels

Se a dúvida é sobre a picada em si, veja picada de abelha e picada de marimbondo.

Na comunidade do Alergias Brasil, famílias que convivem com alergia grave trocam experiência sobre plano de emergência, escola e a luta pelo acesso à adrenalina.

Perguntas frequentes

Caneta de adrenalina é vendida no Brasil?

Não. Nenhum autoinjetor de adrenalina tem registro na Anvisa, por isso não pode ser vendido nas farmácias do país.

A caneta de adrenalina é proibida no Brasil?

Ela não tem registro, e produto sem registro não pode ser vendido aqui. Em abril de 2026, a Anvisa mandou apreender um autoinjetor importado anunciado sem registro. Sobre importação para uso próprio, converse com o médico.

Tem caneta de adrenalina pelo SUS?

Hoje não, até porque nenhum autoinjetor tem registro no país. O PL 85/2024 propõe o fornecimento gratuito pelo SUS. Foi aprovado na Comissão de Saúde da Câmara em 2025 e ainda passa por outras comissões e pelo Senado.

Antialérgico substitui a caneta de adrenalina?

Não. A adrenalina é o único medicamento capaz de tratar todos os sintomas da anafilaxia, segundo a ASBAI. Nos sinais de anafilaxia, ligue 192.

Quem tem alergia a picada de abelha precisa de caneta?

Depende do caso. As indicações vêm da avaliação de risco feita pelo alergista, que também pode avaliar a imunoterapia com veneno.

Este texto é informação e troca de experiência; não substitui o pediatra, o alergista ou o nutricionista. Em caso de reação grave — falta de ar, inchaço no rosto ou nos lábios, vômitos repetidos, moleza — ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro.