Neste texto (8 partes)
Alergia a corante existe, mas é bem menos comum do que se imagina. A maior parte das reações atribuídas a corantes, quando investigada com cuidado, não se repete ou não é alergia no sentido clássico, e sim intolerância. A exceção mais clara é o carmim, corante vermelho com casos de alergia de verdade. Quem investiga é o alergista, com calma e sem cortar tudo de uma vez.
Este texto ajuda a entender a diferença, sem assustar e sem desacreditar quem passou mal.
Alergia e intolerância não são a mesma coisa
Na alergia, o sistema imune produz anticorpos (IgE) contra uma proteína e reage rápido, às vezes de forma grave, mesmo com pouca quantidade.
Na intolerância (também chamada de pseudoalergia), os sintomas podem parecer de alergia, como vergões e coceira, mas o mecanismo é outro. Em geral depende da quantidade e não aparece em exames de alergia.
A maioria dos corantes não é proteína, e por isso a alergia clássica a eles é rara. O carmim é diferente porque vem com proteínas do inseto de onde é extraído.
Tartrazina: muita suspeita, poucas reações confirmadas
A tartrazina (o corante amarelo INS 102) é o corante mais lembrado quando se fala em alergia. Mas os estudos controlados mostram poucas reações confirmadas.
Num estudo italiano de 2003, 102 pessoas que tinham tido urticária ou inchaço depois de comer algo com tartrazina passaram por um teste de provocação duplo-cego (nem o paciente nem a equipe sabiam se era o corante ou um placebo). Só uma pessoa (1%) reagiu à tartrazina. Os autores sugerem que os médicos procurem com cuidado outras causas nesses casos.
Isso não quer dizer que a pessoa inventou a reação. Quer dizer que, muitas vezes, a causa era outra coisa, e vale investigar. Falamos mais da tartrazina e do rótulo em tartrazina.
Carmim: o corante com alergia de verdade
O carmim, ou cochonilha (INS 120), é um corante vermelho feito de um inseto. Junto com ele vêm proteínas, e uma delas é apontada como o principal alérgeno.
Uma revisão de casos no Japão reuniu 28 pessoas com alergia ao carmim confirmada. Todas eram mulheres adultas, todas menos três tiveram anafilaxia, e 13 já tinham tido reação local com cosméticos antes. Os autores mostram que, no caso do carmim, teste cutâneo e IgE no sangue ajudam no diagnóstico.
No Brasil, o carmim aparece bastante: segundo um documento da Anvisa de 2026, ele estava em 5,7% dos alimentos embalados avaliados, com mais presença em produtos de carne, peixe e ovos e em laticínios. Também é usado em cosméticos, como mostram os casos japoneses.
Alergia a corante: sintomas
Quando há reação, ela pode aparecer como:
- Vergões vermelhos e coceira na pele (urticária).
- Inchaço de lábios, olhos ou rosto.
- Chiado ou crise de asma.
- Náusea ou dor de barriga.

Esses sintomas têm muitas causas possíveis, e um corante é só uma delas. Por isso vale anotar tudo e levar ao médico.
Quando é emergência
Falta de ar, chiado forte, garganta fechando, inchaço na língua, tontura ou desmaio: ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro. Veja anafilaxia.
E os conservantes e sulfitos?
Os sulfitos (como o metabissulfito de sódio) são conservantes que aparecem, por exemplo, em vinho e frutas secas, segundo uma revisão de casos coreana. A reação mais conhecida é a crise de asma em quem já tem asma. Num estudo clássico com 203 asmáticos, a melhor estimativa de sensibilidade a sulfito foi de 3,9% nos pacientes estudados, e os autores esperam um número menor na população com asma em geral. O risco foi maior em quem tinha asma mais difícil, que dependia de corticoide. Quem tem asma e desconfia de sulfito pode conversar com o médico sobre isso.
No rótulo, o sulfito aparece na lista de ingredientes como conservador, pelo nome ou pelo número INS. Ele não está na lista de alergênicos do aviso "Alérgicos: contém" da RDC 26/2015. Na União Europeia é diferente: o regulamento de rotulagem obriga a destacar o sulfito como alérgeno quando passa de 10 mg por quilo ou por litro.

Corantes e comportamento das crianças
Muitos pais perguntam sobre corante e agitação. Um estudo inglês de 2007 testou misturas de corantes e benzoato de sódio em crianças e levantou essa discussão. Segundo o documento da Anvisa, a autoridade europeia de alimentos concluiu depois que não havia evidência robusta de causa, mas a União Europeia passou a exigir um aviso nos rótulos com seis corantes. É um debate em aberto, e não é alergia.

Como o médico investiga
Para a maioria dos corantes, o caminho usado nos estudos é o teste de provocação oral duplo-cego, feito em ambiente preparado, como no estudo da tartrazina. Para o carmim, existem também teste cutâneo e IgE, segundo a revisão japonesa.
Ajuda muito chegar à consulta com:
- O que comeu ou passou na pele antes da reação, com a lista de ingredientes (foto do rótulo).
- Quanto tempo depois apareceu o sintoma.
- Como foi e quanto durou.
- Se a reação se repetiu com o mesmo produto.
Cortar todos os produtos com aditivo sem orientação pode empobrecer a alimentação, principalmente de crianças, e nem sempre resolve. A conversa com o alergista e o nutricionista evita restrição à toa.
Como o corante aparece no rótulo
Segundo a RDC 727/2022 da AnvisaRDC_727_2022_COMP.pdf/8167fbac-395a-4189-ab43-024e4d3aa667), como explica o documento da Anvisa de 2026, o corante aparece na lista de ingredientes pela função ("corante") seguida do nome completo ou do número INS. Exemplos: "corante carmim" ou "corante INS 120". A tartrazina é exceção: sempre por extenso.
Os corantes não estão na lista de alergênicos do aviso "Alérgicos: contém" da RDC 26/2015. Então quem precisa evitar um corante lê a lista de ingredientes.
Fontes
- Nettis E et al. Suspected tartrazine-induced acute urticaria/angioedema is only rarely reproducible by oral rechallenge. Clin Exp Allergy, 2003
- Takeo N et al. Cochineal dye-induced immediate allergy: review of Japanese cases. Allergol Int, 2018
- Bush RK et al. Prevalence of sensitivity to sulfiting agents in asthmatic patients. Am J Med, 1986
- Ban GY et al. Two major phenotypes of sulfite hypersensitivity: asthma and urticaria. Yonsei Med J, 2014
- McCann D et al. Food additives and hyperactive behaviour in children. Lancet, 2007
- Anvisa — Documento de base sobre rotulagem de aromatizantes e corantes, 2026
- Anvisa — RDC nº 727/2022RDC_727_2022_COMP.pdf/8167fbac-395a-4189-ab43-024e4d3aa667)
- Anvisa — RDC nº 26/2015
- União Europeia — Regulamento (UE) nº 1169/2011, anexo II
Perguntas frequentes
Alergia a corante existe?
Existe, mas é rara. A maior parte das reações a corantes, quando testada com cuidado, não se repete ou é intolerância. O carmim é o corante com alergia mais bem descrita.
Quais são os sintomas de alergia a corante?
Vergões e coceira na pele, inchaço, chiado ou dor de barriga. Esses sintomas têm muitas causas, por isso a investigação é com o alergista. Falta de ar ou garganta fechando: ligue 192.
Existe exame de sangue para alergia a corante?
Para o carmim, teste cutâneo e IgE ajudam no diagnóstico. Para a maioria dos outros corantes, os estudos usam o teste de provocação oral, feito pelo médico.
Alergia a corante vermelho: qual corante é?
O vermelho mais ligado à alergia de verdade é o carmim (INS 120), também chamado de cochonilha. No rótulo, procure "carmim", "cochonilha" ou "INS 120".
Alergia a corante tem cura?
Não há remédio que cure. Quando a reação a um corante é confirmada, o que as fontes descrevem é evitá-lo lendo o rótulo, com orientação do médico.