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APLV e soja: o que muda na alimentação e na fórmula

APLV e alergia a soja ao mesmo tempo: quantos bebês reagem aos dois, o que muda na amamentação, no rótulo, na fórmula e na introdução alimentar.

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Mulher sentada diante de um bebê na cadeirinha de alimentação, oferecendo comida de colher
Foto: U.S. Department of Agriculture, domínio público, via Flickr
Neste texto (6 partes)
  1. APLV e soja: por que as duas alergias andam juntas
  2. Amamentação: a dieta de quem amamenta
  3. A fórmula: o que o médico pode indicar
  4. O rótulo: procurar leite e soja
  5. Introdução alimentar sem leite e sem soja
  6. Sinais de alerta

Parte das crianças com APLV (alergia à proteína do leite de vaca) também reage à soja. Num estudo com crianças que tinham a APLV do tipo IgE, a de reação rápida, 14% tinham alergia a soja também. Nas formas não IgE, as que mexem com o intestino e aparecem horas depois, isso é ainda mais comum, segundo a revisão da Organização Mundial de Alergia (WAO DRACMA, 2024). Por isso a fórmula de soja não é a escolha para todo mundo com APLV, e quem tem as duas alergias precisa de cuidado com o leite e com a soja ao mesmo tempo.

Na nossa comunidade, uma mãe contou que o bebê de 5 meses tem APLV e também reagiu à soja. É uma situação que assusta no começo, porque a soja aparece em muito lugar. Mas dá para organizar a rotina, e vamos explicar o que muda, parte por parte.

APLV e soja: por que as duas alergias andam juntas

O leite e a soja são, junto com outros poucos alimentos, os que mais causam alergia no primeiro ano de vida. Segundo a ASBAI, leite e soja são os mais comuns nas reações tardias, as que aparecem horas ou dias depois.

As proteínas do leite e da soja são diferentes. Não é que uma "vire" a outra: o bebê pode desenvolver as duas alergias, e isso acontece mais em quem tem a forma não IgE. Os números mudam conforme o tipo de APLV:

  • APLV do tipo IgE (reação rápida): num estudo americano com 93 crianças, 14% tinham alergia a soja. A maioria tolerava soja.
  • APLV não IgE (colite, enterocolite, esofagite): o Consenso Brasileiro de Alergia Alimentar (SBP/ASBAI, 2018, parte 2) diz que, nessas formas, o risco de o bebê também reagir à soja pode chegar a 10%, e por isso a fórmula de soja não é usada de rotina.
  • FPIES pelo leite (a forma com vômitos fortes e repetidos horas depois): segundo uma revisão de 2023 sobre FPIES, cerca de metade dos bebês com menos de 6 meses reage também à fórmula de soja, e por isso ela não costuma ser a primeira escolha.

Os números variam porque cada estudo olhou um grupo diferente. O que vale para o seu bebê é a avaliação do alergista ou do gastropediatra. Para entender os tipos de APLV, veja o que é APLV; para a soja, alergia a soja.

Infográfico APLV e soja: 14% das crianças com APLV do tipo IgE também tinham alergia a soja; cerca de metade dos bebês com FPIES pelo leite reage à fórmula de soja; o que muda na amamentação, na fórmula, no rótulo e na introdução alimentar, e os sinais para ligar 192
Infográfico: Soja · Alergias Brasil

Amamentação: a dieta de quem amamenta

O leite materno continua sendo o melhor alimento, também para o bebê alérgico. A Academia Europeia de Alergia (EAACI) apoia a amamentação de todos os bebês, inclusive os que têm alergia alimentar, e lembra que proteínas de ovo, soja, leite de vaca e trigo aparecem no leite materno horas ou dias depois de a mãe comer.

Por isso, quando o bebê que mama no peito reage ao leite e à soja, às vezes o médico orienta tirar os dois da dieta de quem amamenta. Mas isso é decisão de consulta, não de internet:

  • A diretriz europeia de 2024 (ESPGHAN) diz que a APLV em bebês que mamam só no peito existe, mas é incomum e costuma ser diagnosticada em excesso. Cortar alimentos sem necessidade deixa a dieta da mãe pobre e cansativa.
  • Tirar leite e soja ao mesmo tempo reduz bastante as opções do dia a dia. Um nutricionista ajuda a montar um cardápio que dê conta.
  • Cálcio: sem leite, o cálcio precisa vir de outras fontes. A proposta de protocolo da APLV do Ministério da Saúde (Conitec, 2022) prevê suplementar cálcio e vitamina D enquanto a mãe estiver em dieta sem leite e amamentando, com acompanhamento. Quem decide dose e forma é o médico ou o nutricionista. Repare que tofu e bebidas de soja enriquecidas, opções comuns de cálcio sem leite, saem do cardápio de quem também corta soja.

O passo a passo da dieta, o cardápio de exemplo e as fontes de cálcio estão em dieta da mãe que amamenta e cálcio sem leite.

Mãe jovem amamentando a filha bebê, vestida de rosa, sentada à mesa de um refeitório
Foto: carlosalbertony, CC0 (domínio público), via Wikimedia Commons

A fórmula: o que o médico pode indicar

Quando o bebê precisa de fórmula, o Consenso SBP/ASBAI lista as opções para crianças com APLV, por categoria:

  • Fórmula extensamente hidrolisada: a proteína do leite vem "picada" em pedaços muito pequenos. É a primeira opção para muitos bebês com APLV.
  • Fórmula de aminoácidos: sem proteína inteira nem pedaços, só os "tijolinhos" dela. Costuma ficar para os casos mais graves ou para quem não melhorou com a extensamente hidrolisada.
  • Fórmula de proteína isolada de soja: só para alguns casos, de preferência depois dos 6 meses e sobretudo na APLV do tipo IgE.

Para o bebê que não mama no peito, a diretriz da Organização Mundial de Alergia (WAO DRACMA, 2024) sugere a extensamente hidrolisada (ou a hidrolisada de arroz) como primeira opção, e a de aminoácidos ou a de soja como segunda e terceira.

Se o bebê reage à soja, a fórmula de soja sai da lista. E mesmo em quem não tem alergia a soja conhecida, ela tem regras: o comitê de nutrição da ESPGHAN diz que fórmulas de soja não devem ser usadas em bebês com alergia alimentar nos primeiros 6 meses e que, depois disso, a tolerância à soja deve ser testada antes. A proposta de protocolo do SUS indica a fórmula de soja como primeira opção só de 6 a 24 meses, na APLV do tipo IgE com baixo risco de anafilaxia.

Também não servem para quem tem APLV, segundo o mesmo Consenso: bebida de soja ou de arroz, leite de cabra ou ovelha e fórmula "sem lactose". A bebida de soja de caixinha nem é fórmula, como explicamos em leite de soja para bebê.

Qual fórmula, quanto e até quando é decisão do pediatra ou do alergista, olhando o tipo de alergia, a idade e o crescimento. Leve as dúvidas anotadas para a consulta:

  • O meu bebê tem APLV do tipo IgE ou não IgE?
  • A reação à soja foi confirmada? Como?
  • Qual categoria de fórmula serve para ele agora?
  • Quando vamos reavaliar o leite e a soja?

Fórmula pelo SUS

As fórmulas extensamente hidrolisada, de aminoácidos e de soja foram incorporadas ao SUS em 2018 para a APLV. Cada estado e município organiza a entrega do seu jeito, com laudo e receita. Explicamos o caminho em fórmula para APLV pelo SUS, e o guia por estado está em leite APLV pelo SUS.

O rótulo: procurar leite e soja

Com as duas alergias, cada compra pede dois olhares: o aviso do leite e o da soja. Pela RDC 727/2022 da Anvisa, os rótulos trazem frases como:

  • "ALÉRGICOS: CONTÉM LEITE" ou "CONTÉM DERIVADOS DE LEITE";
  • "ALÉRGICOS: CONTÉM SOJA", "CONTÉM DERIVADOS DE SOJA" ou "CONTÉM SOJA E DERIVADOS";
  • "ALÉRGICOS: PODE CONTER LEITE" ou "PODE CONTER SOJA", quando o contato na fábrica não dá para evitar. Se esses produtos entram na dieta, quem orienta é o alergista.

Muitos produtos "sem leite" usam soja para substituir o leite: bebidas vegetais, sobremesas, margarinas, chocolates e fórmulas. Vale olhar o rótulo inteiro mesmo quando a embalagem diz "zero lactose" ou "vegano". A soja também aparece com outros nomes, como proteína isolada, proteína texturizada e extrato de soja: a lista completa está em proteína isolada de soja no rótulo. E os nomes do leite estão em nomes do leite no rótulo.

Óleo e lecitina de soja

No Brasil, o óleo de soja e a lecitina de soja continuam com aviso de "contém derivados de soja". Os dois são quase só gordura, com pouca proteína, e muitos alérgicos toleram. Mas isso não vale para todo mundo, e a decisão sobre eles é do alergista. Explicamos com calma em óleo de soja e alergia e lecitina de soja.

Introdução alimentar sem leite e sem soja

O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos recomenda começar a comida aos 6 meses, com comida de verdade. Para o bebê com APLV e alergia a soja, a ideia é a mesma, sem leite e sem soja enquanto o médico mantiver a dieta. A boa notícia é que a comida caseira brasileira já é quase toda sem os dois: arroz, feijão, legumes, verduras, frutas, carnes e ovos (se não houver alergia a ovo).

Alguns cuidados:

  • Feijão, lentilha, grão-de-bico e ervilha são leguminosas, como a soja. Os exames costumam "cruzar", mas, num estudo clássico, só 2 de 41 crianças reagiram de verdade a mais de uma leguminosa. Se o feijão entra e quando, é conversa com o alergista.
  • Produtos prontos (biscoitos, pães, papinhas industrializadas, temperos prontos, caldos) costumam ter leite, soja ou os dois. O rótulo é o seu aliado.
  • Na FPIES, a introdução de alimentos novos costuma ter um plano próprio, combinado com o médico.

Anotar o que o bebê comeu e como reagiu ajuda muito na consulta.

Sinais de alerta

Ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro se o bebê tiver:

  • falta de ar, chiado, tosse forte ou voz rouca;
  • inchaço no rosto, nos lábios, na língua ou na garganta;
  • palidez, moleza ou desmaio;
  • vômitos repetidos de 1 a 4 horas depois de comer ou mamar, às vezes com palidez e moleza.

Esse último é o jeito mais comum da FPIES. Segundo a revisão de 2023, os vômitos vêm fortes e repetidos de 1 a 4 horas depois do alimento, e em cerca de 15 a 20% dos casos graves o bebê pode entrar em choque. É pouco comum, mas pede atendimento rápido. Os sinais de reação grave estão em anafilaxia.

Perguntas frequentes

Quem tem APLV pode ter alergia a soja?

Pode. Num estudo, 14% das crianças com APLV do tipo IgE também tinham alergia a soja, e nas formas não IgE, que mexem com o intestino, isso é mais comum. Mas a maioria das crianças com APLV tolera soja. Quem confirma é o alergista.

Bebê com APLV pode tomar fórmula de soja?

Em alguns casos, com indicação médica: em geral depois dos 6 meses, na APLV do tipo IgE e quando a soja é tolerada. Se o bebê reage à soja ou tem FPIES pelo leite, ela não costuma ser a escolha. O pediatra ou o alergista decide.

Qual fórmula para bebê com alergia a leite e soja?

As categorias que o médico pode indicar são a fórmula extensamente hidrolisada e a de aminoácidos. A escolha depende do tipo de alergia, da idade e de como o bebê está crescendo. Pelo SUS, as duas estão disponíveis para a APLV.

A mãe que amamenta precisa tirar leite e soja da dieta?

Só com orientação médica. As proteínas passam para o leite materno, mas a APLV em bebê que mama só no peito é incomum e às vezes é diagnosticada em excesso. Se o médico indicar tirar os dois, um nutricionista ajuda a repor o cálcio.

Bebê com alergia a soja pode comer feijão?

Muitas vezes, sim. Feijão e soja são leguminosas e os exames costumam cruzar, mas reagir de verdade a mais de uma leguminosa é raro. Quando o feijão entra é decisão do alergista.

Óleo de soja e lecitina de soja fazem mal para quem tem APLV e soja?

Para a APLV, não: não têm leite. Para a alergia a soja, os dois são quase só gordura e muitos alérgicos toleram, mas não todos. No Brasil eles têm aviso de derivado de soja, e a decisão é do alergista.

Na comunidade do Alergias Brasil, famílias que vivem com APLV e soja ao mesmo tempo trocam receitas, rótulos conferidos e o caminho da fórmula. A decisão sobre a dieta e a fórmula é sempre com o médico do seu bebê.

Este texto é informação e troca de experiência; não substitui o pediatra, o alergista ou o nutricionista. Em caso de reação grave — falta de ar, inchaço no rosto ou nos lábios, vômitos repetidos, moleza — ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro.