Neste texto (6 partes)
"Alergia a glúten" é o jeito como muita gente chama três problemas diferentes: a alergia ao trigo (uma alergia de verdade, que pode dar reação rápida e grave), a doença celíaca (uma doença autoimune, em que o glúten agride o intestino e que dura a vida toda) e a sensibilidade ao glúten não celíaca (sintomas com glúten sem ser nenhuma das duas). Cada uma tem exame, médico e dieta diferentes.
Essa confusão é compreensível: as três envolvem o trigo e mudam o prato. Mas saber qual é faz diferença no exame, no rótulo e até na emergência. Esta é a divisão usada pela classificação internacional dos distúrbios ligados ao glúten.
O que é o glúten
Glúten é um conjunto de proteínas do trigo, do centeio e da cevada. É ele que dá elasticidade à massa de pão. A aveia tem uma proteína parecida, mas, segundo o protocolo do Ministério da Saúde para doença celíaca, a aveia sem contaminação é segura para a maioria dos celíacos, com exceção de uma pequena parte que reage a ela. O problema é que ela costuma ser contaminada com trigo na plantação ou na fábrica. No rótulo brasileiro, a aveia entra no mesmo item do trigo na lista de alergênicos da Anvisa.
O trigo tem outras proteínas além do glúten. Por isso, alergia ao trigo e problema com o glúten não são a mesma coisa.

Alergia ao trigo
É uma reação do sistema imune às proteínas do trigo, não só ao glúten, segundo a Fenacelbra.
- Quando aparece: de minutos a algumas horas depois de comer.
- Sintomas: coceira ou inchaço na boca e na garganta, urticária, inchaço na pele, coriza, vômito, diarreia, dificuldade para respirar. Pode chegar à anafilaxia.
- Quem é mais afetado: é mais comum em crianças, segundo a revisão de Cianferoni, mas existe em adultos.
- Exames: história da reação, IgE específica para trigo ou teste na pele e, quando preciso, teste de provocação oral (Consenso Brasileiro 2018, EAACI 2023). O exame de sangue sozinho não fecha o diagnóstico.
- Dieta: sai o trigo. Centeio, cevada e aveia dependem de cada pessoa: algumas toleram, outras não, e quem decide é o alergista (Fenacelbra).
- Passa? Em muitas crianças, sim. Num estudo com 103 crianças, a alergia passou em 29% aos 4 anos, 56% aos 8 e 65% aos 12.
- Quem cuida: alergista.
Existem formas especiais, como a anafilaxia induzida por exercício dependente de trigo, em que a reação só acontece quando a pessoa come trigo e faz exercício nas horas seguintes (Scherf, 2016), e a asma do padeiro, alergia à farinha respirada no trabalho. Mais detalhes em alergia a trigo: sintomas, exames e quando passa.
Doença celíaca
É uma doença autoimune: ao comer glúten, o corpo ataca o próprio intestino delgado, segundo a revisão da Lancet e o CRN-3.
- Quando aparece: os sintomas são lentos e vão se acumulando em semanas, meses ou anos.
- Sintomas: muito variados: diarreia ou prisão de ventre, barriga inchada, gases, cansaço, anemia, baixo crescimento na criança, e sinais fora da barriga. Há quem não tenha quase nenhum sintoma.
- Exames: exame de sangue (anticorpo antitransglutaminase IgA, junto com a dosagem de IgA total) e biópsia do intestino por endoscopia, segundo o protocolo do Ministério da Saúde e a revisão da Lancet. Em crianças de até 2 anos, o protocolo inclui outro exame de sangue (antigliadina deamidada IgG). Os exames precisam ser feitos enquanto a pessoa ainda come glúten, então, antes de tirar o glúten por conta própria, converse com o médico.
- Biópsia sempre? Aqui as diretrizes divergem. O protocolo brasileiro pede a biópsia para confirmar e só abre exceção para parentes de primeiro grau com sintomas e anticorpo muito alto (10 vezes acima do normal) e antiendomísio positivo. A diretriz europeia de pediatria (ESPGHAN 2020) permite dispensar a biópsia em crianças com anticorpo 10 vezes acima do normal e antiendomísio positivo numa segunda amostra, se a família concordar. Quem decide é o gastroenterologista.
- Dieta: sai todo o glúten (trigo, centeio, cevada e aveia contaminada), para a vida toda, com cuidado inclusive com contaminação cruzada e utensílios separados, segundo o protocolo do Ministério da Saúde.
- Passa? Não tem cura. A dieta sem glúten é o tratamento, segundo o CRN-3 e a revisão da Lancet.
- Quem cuida: gastroenterologista, com nutricionista.
Tudo sobre exames e tratamento em doença celíaca, e os sinais por idade em sintomas da doença celíaca.
Não é rara: no mundo, atinge cerca de 1 em cada 100 pessoas, segundo a revisão da Lancet. Num estudo com doadores de sangue em São Paulo, pelo menos 1 em cada 286 pessoas tinha doença celíaca sem saber; outros estudos brasileiros citados pelo protocolo do Ministério da Saúde acharam números da mesma ordem, que variam conforme a região (de cerca de 1 em 120 a 1 em 680). No SUS, ela tem protocolo próprio, atualizado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 2025. Para quem tem celíaca, a Fenacelbra reúne orientações específicas.
Sensibilidade ao glúten não celíaca
É quando a pessoa tem sintomas ao comer glúten ou trigo, mas os exames mostram que não é alergia nem doença celíaca. Os sintomas podem ser da barriga (inchaço, dor, diarreia) e de fora dela (cansaço, dor de cabeça, "mente nublada"), segundo o consenso de especialistas de Salerno. O diagnóstico começa por exclusão: primeiro o médico descarta as outras duas, como descreve a classificação internacional. Não existe exame de sangue que confirme; o consenso de Salerno descreve uma confirmação com o médico, comparando glúten e placebo sem a pessoa saber qual está comendo. É um tema em que a ciência ainda está avançando.
"Intolerância ao glúten" é um nome popular que às vezes quer dizer celíaca, às vezes sensibilidade. Vale perguntar ao médico qual é o diagnóstico exato. Os sintomas e o caminho da investigação estão em intolerância ao glúten: sintomas e como saber.
Resumo rápido: qual é qual
- Reação rápida, de minutos a horas, com pele, inchaço ou falta de ar: parece alergia ao trigo. O caminho é o alergista.
- Sintomas lentos de barriga, anemia, criança que não cresce: pode ser doença celíaca. O caminho é o gastroenterologista, antes de tirar o glúten.
- Sintomas com glúten, mas exames normais: pode ser sensibilidade não celíaca. Converse com o médico.

Se depois de comer trigo aparecer falta de ar, inchaço na língua ou na garganta, vômitos repetidos, tontura ou desmaio, inclusive durante ou depois de exercício, ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro. Veja os sinais em anafilaxia.
E no rótulo?
No Brasil, duas regras se somam:
- A Lei 10.674/2003 obriga todo alimento industrializado a dizer "CONTÉM GLÚTEN" ou "NÃO CONTÉM GLÚTEN". Ela foi feita "como medida preventiva e de controle da doença celíaca".
- A RDC 727/2022 da Anvisa, que consolidou e substituiu a antiga RDC 26/2015, obriga o aviso de alergênicos: "ALÉRGICOS: CONTÉM TRIGO" (o item da lista inclui também centeio, cevada e aveia), "CONTÉM DERIVADOS DE TRIGO" ou, quando não dá para garantir a ausência, "PODE CONTER TRIGO".
Para quem tem alergia ao trigo, o aviso que mais importa é o de alergênicos. Confira as duas frases. Se quer cozinhar em casa, o pão sem glúten de liquidificador não leva trigo.
Fontes
- Sapone et al., classificação dos distúrbios ligados ao glúten, BMC Med 2012
- Cianferoni, alergia ao trigo: diagnóstico e tratamento, 2016
- Catassi et al., doença celíaca, Lancet 2022
- Keet et al., história natural da alergia ao trigo, 2009
- Scherf et al., anafilaxia induzida por exercício dependente de trigo, 2016
- Alencar et al., doença celíaca em doadores de sangue de São Paulo, 2012
- Fenacelbra: alergia ao trigo
- CRN-3: doença celíaca e alergia ao trigo
- Ministério da Saúde, PCDT da doença celíaca (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8/2025)
- Husby et al., ESPGHAN 2020: diagnóstico da doença celíaca
- Catassi et al., critérios de Salerno para sensibilidade ao glúten não celíaca, 2015
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2018, parte 2 (SBP/ASBAI)
- EAACI 2023: diagnóstico de alergia alimentar IgE
- Lei 10.674/2003
- Anvisa, RDC 727/2022
Perguntas frequentes
Alergia a glúten existe?
O nome é popular, mas os médicos separam três problemas: alergia ao trigo, doença celíaca e sensibilidade ao glúten não celíaca. Cada um tem exame e dieta diferentes.
Quem tem alergia ao trigo é celíaco?
Não. A alergia ao trigo é uma reação alérgica às proteínas do trigo, em geral rápida. A doença celíaca é autoimune e lesa o intestino. Uma pessoa pode ter uma sem ter a outra.
Qual médico procurar: alergista ou gastro?
Reação rápida, com pele, inchaço ou falta de ar, é com o alergista. Sintomas lentos de barriga, anemia ou baixo crescimento costumam ser investigados pelo gastroenterologista.
Quem tem alergia ao trigo pode comer aveia, centeio e cevada?
Depende de cada pessoa. Algumas toleram, outras reagem. Quem decide é o alergista, com base na sua história e nos exames.
Posso tirar o glúten antes do exame de doença celíaca?
Converse com o médico antes de tirar o glúten por conta própria. O protocolo do Ministério da Saúde diz que os exames de celíaca devem ser feitos enquanto a pessoa ainda come glúten; tirar antes pode dar resultado falso negativo. É o médico quem orienta como e quando fazer.
Na comunidade do Alergias Brasil, quem tem alergia ao trigo troca experiência sobre rótulo, receitas sem trigo e dia a dia, sem confundir as coisas e sempre com fonte.