Neste texto (7 partes)
A doença celíaca é uma doença autoimune: em quem tem predisposição genética, o glúten (do trigo, do centeio e da cevada) faz o próprio sistema imune inflamar e machucar o intestino delgado. Não é alergia e não passa com o tempo. O diagnóstico é feito com exame de sangue e biópsia do intestino, ainda comendo glúten, e o tratamento é a alimentação sem glúten para a vida toda, com acompanhamento do médico e do nutricionista.
É uma doença comum, mas muita gente passa anos sem saber que tem. Abaixo, o que dizem o protocolo do Ministério da Saúde (PCDT de 2025) e as diretrizes internacionais, em linguagem simples.
O que é a doença celíaca
O glúten é um conjunto de proteínas do trigo, do centeio e da cevada. Na pessoa celíaca, ele dispara uma reação do sistema imune que inflama a parede do intestino delgado. Com o tempo, as vilosidades (as "dobrinhas" que absorvem os nutrientes) ficam achatadas, e o corpo passa a absorver mal ferro, cálcio, vitaminas e outros nutrientes.
Segundo o PCDT, a maioria das pessoas com a doença tem os genes HLA-DQ2 ou HLA-DQ8. Ter esses genes não quer dizer ter a doença: muita gente tem e nunca adoece. Por isso o protocolo do SUS não recomenda o teste genético para fazer o diagnóstico.
Doença celíaca não é alergia. A Fenacelbra resume bem: é uma doença autoimune, e não uma alergia ou intolerância alimentar. Na prática, a diferença é esta:
- Doença celíaca: autoimune, reação lenta (semanas, meses, anos), dura a vida toda. Quem cuida é o gastroenterologista.
- Alergia ao trigo: reação do sistema imune às proteínas do trigo, que costuma aparecer de minutos a poucas horas depois de comer e pode ser grave. Quem cuida é o alergista. Explicamos em alergia a trigo: sintomas, exames e quando passa.
- Sensibilidade ao glúten não celíaca: sintomas com glúten sem ser nenhuma das duas. Veja intolerância ao glúten: sintomas e como saber.
A comparação completa, lado a lado, está em alergia a glúten, alergia ao trigo ou celíaca?.
Quantas pessoas têm doença celíaca
No mundo, a doença atinge entre 0,5% e 2% da população, cerca de 1 em cada 100 pessoas, segundo uma revisão publicada no Lancet em 2022. No Brasil, um estudo com 4.000 doadores de sangue em São Paulo encontrou pelo menos 1 caso em cada 286 pessoas que se achavam saudáveis. O PCDT reúne outros estudos brasileiros, com números de 1 em 214 a 1 em 681, conforme a cidade.
O mesmo protocolo lembra que a doença é subdiagnosticada: para cada pessoa diagnosticada por causa dos sintomas, estima-se que existam de três a sete com poucos ou nenhum sintoma e sem diagnóstico.
A doença pode começar em qualquer idade. Segundo a Fenacelbra, costuma aparecer na infância, entre 1 e 3 anos, mas também surge em adultos e idosos.
Quem tem mais risco
O PCDT indica investigar, além de quem tem sintomas:
- Parentes de primeiro grau (pais, filhos, irmãos) de pessoas celíacas, mesmo sem sintomas.
- Pessoas com outras doenças autoimunes, como diabetes tipo 1, tireoidite autoimune e hepatite autoimune.
- Pessoas com deficiência de IgA.
- Pessoas com síndrome de Down, de Turner ou de Williams.
- Pessoas com diagnóstico de síndrome do intestino irritável.
Os sintomas variam muito, da barriga à pele e aos ossos. Detalhamos em doença celíaca: sintomas em crianças e adultos.

Exames da doença celíaca
O caminho tem duas etapas: exame de sangue para rastrear e biópsia do intestino para confirmar. Os dois precisam ser feitos enquanto a pessoa ainda come glúten. Tirar o glúten antes pode fazer o exame dar normal mesmo em quem tem a doença. Se você suspeita, converse com o médico antes de mudar a alimentação.
1. Exame de sangue
Segundo o PCDT, os primeiros exames são, juntos:
- Antitransglutaminase IgA (tTG-IgA): o anticorpo mais usado, com sensibilidade de 92% a 100% e especificidade de 91% a 100%, segundo o protocolo.
- IgA total: quem tem pouca IgA no sangue pode ter um antitransglutaminase falsamente negativo. Por isso os dois são pedidos ao mesmo tempo.
- Em crianças de até 2 anos: o SUS incorporou também o exame de antigliadina deamidada IgG (DGP-IgG).
A diretriz europeia de pediatria (ESPGHAN 2020) recomenda a mesma dupla, antitransglutaminase IgA com IgA total, como primeira escolha.

2. Endoscopia com biópsia
Com o exame de sangue positivo, o médico pede uma endoscopia digestiva alta, com retirada de pequenos pedaços da parede do duodeno (a primeira parte do intestino). O PCDT chama a biópsia de padrão-ouro e pede pelo menos seis fragmentos. Ela também pode ser indicada quando o sangue vem negativo, mas a suspeita é forte (diarreia crônica, anemia sem causa, baixa estatura, por exemplo).
Dá para fechar o diagnóstico sem biópsia?
Aqui as diretrizes não dizem exatamente a mesma coisa:
- A ESPGHAN 2020 aceita dispensar a biópsia em crianças com antitransglutaminase IgA 10 vezes ou mais acima do limite e anticorpo antiendomísio (EMA) positivo numa segunda amostra de sangue, se a família concordar.
- O PCDT brasileiro pede que o diagnóstico seja sempre confirmado pela biópsia e só cita a dispensa para parentes de primeiro grau com sintomas, com o anticorpo 10 vezes acima do limite e EMA positivo.
- A diretriz americana (ACG, 2023) diz que a biópsia é necessária na maioria dos pacientes e sugere a estratégia sem biópsia só em crianças selecionadas.
Quem decide o caminho é o gastroenterologista, de acordo com o caso.

Tratamento: a alimentação sem glúten
Hoje, o único tratamento comprovado é a dieta sem glúten para a vida toda, segundo o PCDT. Isso quer dizer tirar trigo, centeio, cevada e seus derivados (farinha de trigo, malte, pão, macarrão, biscoitos) e tomar cuidado com alimentos que podem ser contaminados na produção, como a aveia. O caso da aveia está em aveia tem glúten?, e a lista do dia a dia em alimentos com glúten.
Alguns pontos do protocolo que ajudam a entender o tratamento:
- Cozinha: o PCDT orienta separar os utensílios e aparelhos difíceis de lavar para evitar contaminação (uma torradeira ou uma peneira usadas com pão comum, por exemplo).
- Rótulo: pela Lei 10.674/2003, todo alimento industrializado diz "CONTÉM GLÚTEN" ou "NÃO CONTÉM GLÚTEN".
- Nutricionista: o protocolo considera muito desejável o acompanhamento com nutricionista, porque podem faltar ferro, folato, vitamina B12, vitamina D, cálcio e zinco, e a dieta sem glúten costuma ter pouca fibra.
- Lactose: com o intestino machucado, pode aparecer uma intolerância à lactose temporária, que costuma melhorar em cerca de dois meses de tratamento, segundo o PCDT.
- Consultas: o protocolo prevê acompanhamento com médico e nutricionista a cada três a seis meses no primeiro ano e, depois, uma vez por ano, repetindo o antitransglutaminase para ver se ele cai.
- Apoio: o PCDT encoraja buscar grupos de apoio, porque participar deles está associado a seguir melhor a dieta.
Com a dieta, a parede do intestino tende a se recuperar e os sintomas, a melhorar. A diretriz americana lembra que a maioria das pessoas responde muito bem; quando os sintomas continuam, a causa mais comum é o glúten "escondido", e o médico investiga.
Doença celíaca tem cura?
Não. A doença celíaca não tem cura: a dieta sem glúten controla a doença, mas, se o glúten volta, a inflamação volta. Por isso o PCDT recomenda a dieta para a vida toda, para todas as pessoas com o diagnóstico, mesmo as que não sentem nada. A revisão do Lancet conta que há muitas pesquisas de remédios em andamento, mas nenhum substitui a dieta hoje.
Celíaca e alergia ao trigo ao mesmo tempo
Segundo o PCDT, uma pequena parte das pessoas celíacas também tem alergia ao trigo. A alergia pode dar reação rápida e grave. Se depois de comer aparecerem falta de ar, inchaço na língua ou na garganta, vômitos repetidos, tontura ou desmaio, ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro. Veja os sinais em anafilaxia.
Fontes
- Ministério da Saúde, PCDT da doença celíaca (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8/2025)
- Husby et al., diretriz ESPGHAN para o diagnóstico da doença celíaca, 2020
- Rubio-Tapia et al., diretriz ACG sobre diagnóstico e tratamento da doença celíaca, 2023
- Catassi et al., doença celíaca, Lancet 2022
- Alencar et al., prevalência de doença celíaca em doadores de sangue de São Paulo, 2012
- Fenacelbra: doença celíaca
- Fenacelbra: sensibilidade ao glúten não celíaca
- Lei 10.674/2003
Perguntas frequentes
Doença celíaca tem cura?
Não. A doença é para a vida toda. A alimentação sem glúten controla a inflamação e permite que o intestino se recupere, mas o glúten de volta traz a doença de volta. Há pesquisas de remédios, mas nenhum substitui a dieta hoje.
Doença celíaca é alergia?
Não. É uma doença autoimune: o sistema imune agride o próprio intestino quando há glúten. A alergia ao trigo é outra coisa, com reação rápida e outro médico (o alergista).
Qual exame detecta a doença celíaca?
O primeiro é o exame de sangue antitransglutaminase IgA, pedido junto com a IgA total (em crianças de até 2 anos, também a antigliadina deamidada IgG). A confirmação, na maioria dos casos, é a biópsia do intestino feita por endoscopia.
Posso tirar o glúten antes de fazer o exame?
O ideal é não tirar sem falar com o médico. O protocolo do Ministério da Saúde pede os exames enquanto a pessoa ainda come glúten; sem ele, o resultado pode vir normal mesmo em quem tem a doença.
Qual o CID da doença celíaca?
No CID-10, a doença celíaca é o código K90.0, segundo o protocolo do Ministério da Saúde.
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