Neste texto (7 partes)
Imunoterapia para alergia é um tratamento em que o alergista dá, aos poucos, doses do próprio alérgeno (ácaro, pólen, veneno de abelha, por exemplo) para o sistema imune aprender a tolerar o que antes provocava a reação. Ela é diferente da imunoterapia do câncer, que usa outros remédios para o corpo atacar o tumor. Na alergia respiratória, é conhecida como "vacina para alergia", dura pelo menos três anos e é o único tratamento que mexe na causa da alergia, não só nos sintomas.
Quem pesquisa "imunoterapia" no Google cai muito em textos de câncer. Aqui o assunto é só alergia.
Imunoterapia para alergia não é a do câncer
As duas têm o mesmo nome porque mexem com o sistema imune, mas fazem coisas opostas:
- imunoterapia do câncer: remédios que acordam o sistema imune para atacar o tumor;
- imunoterapia para alergia (com alérgenos): doses crescentes do alérgeno que acalmam a reação exagerada do sistema imune.
Também não é a mesma coisa que os remédios biológicos para asma grave, como os anticorpos que o Protocolo da Asma do SUS (2026) prevê com critérios definidos. Biológico é remédio que bloqueia uma peça da inflamação; imunoterapia com alérgeno é "treino" com o próprio alérgeno.

Para quais alergias existe imunoterapia
Rinite e asma alérgica. É a mais conhecida. As diretrizes da AMB e da ASBAI a chamam de único tratamento capaz de modificar a resposta alérgica. Ela pode ser em injeção (subcutânea) ou em gotinhas debaixo da língua (sublingual). No Brasil, o alérgeno mais tratado é o ácaro. Os detalhes (quem pode, idade, quanto tempo) estão em vacina para rinite.
Picada de inseto. Para quem já teve reação grave a picada de abelha, vespa ou formiga, existe a imunoterapia com veneno, em injeção. Segundo uma revisão americana de 2026, ela evita novas reações em até 98% dos pacientes. Veja alergia a picada de inseto.
Alergia alimentar. Para algumas alergias, como amendoim e ovo, existe a imunoterapia oral: a pessoa come quantidades bem pequenas do alimento, aumentadas aos poucos, sempre com equipe especializada. A atualização brasileira da ASBAI e da SBP (2025) recomenda a do amendoim para crianças e adolescentes; o objetivo é diminuir o risco de reação num acidente, não liberar o alimento. Veja alergia a amendoim e alergia a ovo.
Como funciona a imunoterapia
Em todos os tipos, a lógica é parecida:
- O alergista confirma a alergia com história e teste (na pele ou no sangue).
- Começa uma fase em que as doses sobem aos poucos.
- Depois vem a fase de manutenção, com a mesma dose por um bom tempo.
- O médico acompanha pelos sintomas e decide quando parar.
Na alergia respiratória, as diretrizes da AMB e da ASBAI falam em pelo menos três anos para ter efeito duradouro. O V Consenso Brasileiro sobre Rinites diz que o benefício pode durar anos depois do fim e que ela pode ajudar a prevenir a asma em quem tem rinite. Veja também rinite alérgica tem cura?.

Efeitos colaterais da imunoterapia
As diretrizes da AMB e da ASBAI descrevem, para a alergia respiratória:
- Na injeção: o mais comum é reação no local, como vermelhidão, inchaço, dor e coceira, em geral leve. Podem aparecer reações no corpo, quase sempre leves (espirro, coceira, nariz entupido, urticária). Reações graves, como anafilaxia, são raras, mas existem. Por isso a injeção é aplicada em local com estrutura e adrenalina à mão, como pede o Conselho Federal de Medicina.
- Na gotinha: o mais comum é coceira e irritação na boca e na garganta, leves a moderadas, principalmente no começo. Num grande conjunto de estudos citado pelas diretrizes, não houve reação grave nem anafilaxia. Em estudos com pólen, cerca de 5% das pessoas pararam o tratamento por causa dos efeitos.
Na imunoterapia oral para alimentos, reações são mais frequentes, e algumas podem ser fortes; por isso ela só é feita em serviço preparado.
Quem pode fazer imunoterapia
Não é para todo mundo. Para a alergia respiratória, as diretrizes pedem:
- alergia comprovada por teste, que combine com os sintomas;
- sintomas que não ficam controlados, ou vontade de depender menos de remédio;
- avaliação do alergista.
Quem não deve começar, segundo as diretrizes:
- quem tem asma grave e mal controlada (contraindicação absoluta);
- quem tem doença grave em atividade, como algumas doenças do sistema imune, infecções e câncer;
- gestantes: não se começa na gravidez. Se a mulher engravida durante o tratamento, as diretrizes dizem que ele não precisa ser interrompido, mas a dose não é aumentada se ainda estiver na fase de subida.
Imunoterapia pelo SUS
Hoje o SUS não oferece a imunoterapia para rinite nem a com veneno de inseto, segundo pareceres técnicos da Justiça, como o parecer 2901/2025 do TJRJ. Ela é feita no particular ou pelo plano. Alguns hospitais universitários têm ambulatórios de alergia; vale perguntar ao seu médico.
Quando é emergência
Durante ou depois de uma dose, se aparecer falta de ar, chiado forte, inchaço na boca, na língua ou no rosto, coceira pelo corpo todo, tontura ou desmaio: ligue 192 (SAMU) e avise que pode ser anafilaxia.
Imunoterapia é uma decisão de anos, conversada com calma com o alergista. Dá para viver bem com alergia, com cuidado e informação. Na comunidade do Alergias Brasil, quem já fez ou está fazendo troca experiência sobre consulta, rotina e custo.
Fontes
- Diretrizes Brasileiras para Imunoterapia com Alérgenos no Tratamento da Rinite Alérgica, AMB e ASBAI, 2023
- V Consenso Brasileiro sobre Rinites 2024. Solé D et al. Braz J Otorhinolaryngol 2025 (texto completo)
- Resolução CFM nº 2.215/2018
- McMurray JC, Bingemann TA, Golden DBK. Venom anaphylaxis. Immunol Allergy Clin North Am, 2026
- Atualização em alergia alimentar, ASBAI e SBP, 2025
- PCDT da Asma, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 43/2026
- Parecer técnico TJRJ nº 2901/2025
Perguntas frequentes
Imunoterapia para alergia é a mesma do câncer?
Não. A do câncer usa remédios que estimulam o sistema imune a atacar o tumor. A da alergia dá doses crescentes do alérgeno para o corpo aprender a tolerar. São tratamentos diferentes, com médicos diferentes.
Quais os efeitos colaterais da imunoterapia para alergia?
O mais comum é reação leve no local: vermelhidão e coceira no braço, na injeção, ou coceira na boca, na gotinha. Reações no corpo todo são raras, e por isso a injeção é feita em consultório preparado.
Quem pode fazer imunoterapia?
Quem tem alergia comprovada por teste, que combine com os sintomas, e avaliação do alergista. Asma grave e mal controlada impede o tratamento, e ele não é iniciado na gravidez.
Quanto tempo dura a imunoterapia?
Na alergia respiratória, pelo menos três anos, segundo as diretrizes da AMB e da ASBAI. Na alergia a veneno de inseto, segundo uma revisão americana de 2026, a maioria pode parar depois de cinco anos; quem tem risco alto pode precisar de mais tempo.
O SUS oferece imunoterapia para alergia?
Hoje não, segundo pareceres técnicos da Justiça. Ela é feita no particular ou pelo plano de saúde. Quem decide se vale a pena é o alergista.