Neste texto (7 partes)
Urticária ao frio é quando a pele forma vergões que coçam, ou incha, depois de ficar exposta ao frio: água gelada, vento, ar-condicionado forte, bebida ou sorvete. As placas costumam aparecer quando a pele volta a esquentar. Na maioria das pessoas, fica na pele. Mas mergulhar o corpo inteiro em água fria pode causar uma reação do corpo todo, por isso mar, piscina e rio pedem um plano combinado com o médico.
Parece estranho ter "alergia ao frio" num país quente, mas ela existe, aparece também no Brasil e tem diagnóstico simples.
O que é a urticária ao frio
A urticária ao frio é um dos tipos de urticária crônica induzida: aquela que aparece sempre com o mesmo estímulo. A diretriz internacional de urticária a coloca ao lado do dermografismo, da urticária colinérgica e da solar, e diz que é comum a mesma pessoa ter mais de um tipo.
Ela também é chamada de urticária ao frio adquirida. Uma revisão de 2025 sobre urticária ao frio explica que:
- é o segundo tipo mais comum de urticária induzida;
- atinge mais adultos jovens, mas pode aparecer em qualquer idade;
- na maioria das pessoas, a forma adquirida passa sozinha com o tempo; existem formas hereditárias, raras, que duram a vida toda.
Numa revisão de estudos de 2022, a urticária ao frio respondia por cerca de 1 em cada 4 casos de urticária induzida. No Brasil, ela parece menos frequente: num centro de Santo André (SP) que acompanhou 96 pessoas com urticária induzida, a lista de tipos não tinha nenhum caso de urticária ao frio. Isso não quer dizer que ela não exista aqui, só que pode ser menos lembrada.
Sintomas da urticária ao frio
Os sinais mais comuns:
- vergões vermelhos que coçam na pele que esfriou: mãos, rosto, pernas;
- inchaço nas mãos depois de segurar algo gelado;
- lábios ou boca inchados depois de bebida gelada ou sorvete;
- vergões espalhados depois de entrar no mar, na piscina ou de pegar chuva e vento.
A revisão de 2025 lista como gatilhos o ar frio, o vento, a água fria, encostar em superfícies geladas, comer ou beber algo gelado e até o frio da sala de cirurgia. Os vergões costumam durar menos do que os da urticária espontânea.

O risco na água fria
Esta é a parte que mais importa. Num estudo internacional com 551 pessoas com urticária ao frio, feito em 32 centros de referência, 75% tinham a forma típica (com o teste do gelo positivo). Dessas, 37% já tinham tido uma reação do corpo todo, a anafilaxia. O gatilho mais comum foi entrar de corpo inteiro na água fria.
O mesmo estudo achou uma curiosidade importante para nós: a reação grave causada por ar frio era mais comum em países de clima quente. Uma revisão de estudos juntou os dados de vários trabalhos e encontrou anafilaxia em cerca de 21% das pessoas com urticária ao frio.
Sinais de risco maior, segundo o estudo e a revisão de 2025, que valem contar ao médico:
- boca ou garganta inchada depois de comer ou beber algo gelado (cerca de 1 em cada 3 pessoas com a forma típica já teve isso);
- vergões no corpo todo, e não só no lugar que esfriou;
- inchaço (angioedema) junto com os vergões;
- coceira nas orelhas com o frio;
- reação forte a picada de abelha ou vespa no passado.

Como o médico confirma: o teste do gelo
O diagnóstico é simples. A diretriz recomenda o teste de provocação com frio, medindo o limiar, e exames de sangue básicos (hemograma e marcadores de inflamação), para descartar outras doenças, principalmente infecções.
No teste padrão, descrito na revisão de 2025, o médico encosta um cubo de gelo protegido (por exemplo, dentro de uma luva) no antebraço por 5 minutos e observa a pele por mais 10 minutos. Se aparecer um vergão no lugar, o teste é positivo. Depois, ele pode testar tempos menores para saber com quanto frio a pele reage. Existe também um aparelho com várias temperaturas, usado em centros especializados.
Para a consulta, leve:
- fotos das placas e do inchaço;
- o que estava acontecendo (mar, piscina, vento, bebida gelada);
- se teve tontura, falta de ar ou desmaio alguma vez;
- se a boca já inchou com algo gelado.
Como é o tratamento
O plano é feito pelo alergista ou pelo dermatologista. O que as diretrizes descrevem:
- reduzir a exposição ao frio quando possível: a diretriz diz que isso diminui as crises, e lembra que o vento deixa o frio mais forte na pele;
- como base, anti-histamínico de segunda geração. A diretriz sugere decidir com o médico se o uso é contínuo ou só na época do ano em que as crises aparecem;
- para quem tem risco de reação grave, a revisão de 2025 recomenda que o médico prescreva adrenalina autoinjetável e ensine quando e como usar.
Existe também a "indução de tolerância", com exposição diária ao frio, mas a diretriz observa que exige banhos frios todo dia e muita gente não consegue manter. É decisão para tomar com o especialista.
No dia a dia: praia, piscina e ar-condicionado
Dá para viver bem com urticária ao frio. Algumas conversas para ter com o médico:
- o que fazer antes de ir à praia, à piscina, ao rio ou à cachoeira;
- entrar na água sempre com alguém que saiba da alergia;
- como lidar com ar-condicionado forte no trabalho, no ônibus e no cinema;
- bebidas e sorvetes gelados, se a boca já inchou alguma vez;
- avisar antes de cirurgia ou exame que use frio: a revisão de 2025 cita a sala de cirurgia entre os gatilhos.
Quando é emergência
Ligue 192 (SAMU) se, depois do frio ou dentro da água, vier:
- tontura, fraqueza forte ou desmaio;
- falta de ar ou chiado no peito;
- inchaço na língua ou na garganta, voz rouca ou dificuldade para engolir;
- vômitos.
Se a pessoa estiver na água, o primeiro passo é tirá-la da água. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde orienta atendimento imediato quando há dificuldade para respirar, falar ou engolir. Veja os sinais e o que fazer na página de anafilaxia.
Quer entender as outras urticárias que aparecem com estímulos? Veja urticária colinérgica, quando o calor e o suor dão coceira, e dermografismo, ou a urticária solar, quando a luz do sol dá vergões. Na comunidade do Alergias Brasil, quem tem urticária ao frio troca dicas de praia, viagem e trabalho.
Fontes
- Zuberbier T et al. Diretriz internacional de urticária (atualização da EAACI/GA²LEN/EuroGuiDerm/APAAACI), com ASBAI, SBD e SBP. Allergy, 2026
- Bizjak M et al. Fatores de risco para reações sistêmicas na urticária ao frio típica: estudo COLD-CE. Allergy, 2022
- Bizjak M et al. Urticária ao frio: dos vergões à anafilaxia. Allergy Asthma Immunol Res, 2025
- Prosty C et al. Prevalência, tratamento e risco de anafilaxia na urticária ao frio: revisão sistemática e metanálise. J Allergy Clin Immunol Pract, 2022
- Análise de 267 pacientes com urticária num centro terciário brasileiro. An Bras Dermatol, 2021
- Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde — Urticária
Perguntas frequentes
O que é urticária ao frio?
É um tipo de urticária induzida em que a pele forma vergões que coçam, ou incha, depois de esfriar: água fria, vento, ar-condicionado, bebida gelada.
Urticária ao frio é perigosa?
Na maioria das vezes fica na pele. O risco maior é entrar de corpo inteiro em água fria, que pode causar anafilaxia. Por isso, mar e piscina pedem um plano combinado com o médico. Tontura, falta de ar ou desmaio: 192.
Como saber se tenho urticária ao frio?
O médico faz o teste do gelo: um cubo de gelo no antebraço por 5 minutos e observação por mais 10. Se aparecer o vergão, o teste é positivo. Fotos das crises ajudam muito.
Quem tem urticária ao frio pode ir à praia ou à piscina?
Muita gente vai, com cuidado. Converse com o alergista antes, entre na água acompanhado e saiba reconhecer os sinais de emergência.
Urticária ao frio tem cura?
Na maioria das pessoas, a forma adquirida passa com o tempo, mas não dá para prever quando. Enquanto isso, o tratamento indicado pelo médico ajuda a controlar.